A indústria dos agrotóxicos e seus áulicos

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As revelações trazidas pelo processo judicial em que a Monsanto/Bayer foi condenada a pagar R$ 1 bilhão por não ter propriamente informado ao jardineiro Dwayne Johnson o potencial cancerígeno do herbicida Round Up (também conhecido pelo nome do seu princípio ativo que é o glifosato) mostram que esse segmento industrial vem imitando os passos dados pelas corporações tabagistas que, por décadas, negaram o potencial dos cigarros de causarem diversos tipos de doenças usando pesquisadores “muy amigos”.

Esse fato foi demonstrado pela matéria de diversos veículos da mídia internacional que citaram os múltiplos esforços realizados pela Monsanto para apoiar pesquisadores simpáticos aos seus interesses comerciais, enquanto agia para desacreditar aqueles que contribuíam com pesquisas que demonstavam justamente o contrário [1].

Essas táticas corporativas não surpreendem pois, como eu já disse, as corporações tabagistas já empregaram essa estratégia à exaustão até que ficou impossível aceitar a versão de cientitas “muy amigos” que também negavam os impactos negativos dos cigarros sobre a saúde dos usuários. Quem desejar saber mais sobre isto, sugiro que procurem assistir o filme “O informante” estrelado por Russell Crowe e que mostra a saga de um pesquisador, Jeffrey Wigand, que resolveu contar o que sabia sobre as ações da Brown & Williamson para ocultar suas próprias pesquisas que mostravam o contrário do que a empresa propagandeava [2].

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Interessante notar que passadas duas décadas das revelações cercando a Brown & Williamson, ainda há gente que também usa a estratégia de defender a indústria de agrotóxicos usando a mesma tática de desacreditar a ciência que foi utilizada para justificar a decisão contra a Monsanto.  Esses verdadeiros áulicos da indústria do veneno adotam a cantilena de que 1) há ciência desprovando as teses apontam o papel danoso do glifosato à saúde humana e 2) a suposta inexistência de ciência que confirmem isso.

E obviamente esses áulicos adotam táticas utilizadas contra a esquerda pelos grupos de ultradireita que abundam nas redes sociais. A coisa vai do escárnio puro e simples até a menção de quem condena o uso amplo e intensivo de agrotóxicos é “esquerdopata”. 

Por outro lado, se repete a cantilena manjada de que se não fosse pelos agrotóxicos o mundo já teria morrido de fome, como se a humanidade não viesse se virando sem eles há mais de 15.000 anos ou como se a questão da falta de alimentos não tivesse nada com fatores sociais, econômicos e políticos.

O problema para esses áulicos do veneno é que o glifosato já vem sendo objeto de estudos há mais de uma década, existindo múltiplos trabalhos, produzidos usando “sound science”e publicados em revistas reconhecidas pela comunidade científica, que apontaram os riscos postos pela exposição ao glifosato, não apenas sobre a saúde humana, mas também para os ecossistemas naturais.  Aliás, basta fazer uma busca simples no Google Acadêmico usando palavras-chaves como “glifosato, câncer, Round up” que aparecerão trabalhos apontando para as ligaçõe entre a exposição ao glifosato e o câncer, entre outras doenças.

Em outras palavras, os que negam os impactos do glifosato escolhem ser acólitos da indústria do veneno, recebendo recursos do segmento ou não. E aqui há que se relacionar esses áulicos do veneno à outros negacionistas de pesquisas científicas (aliás, esses segmentos muitas vezes se misturam) que apontam o dedo na direção das corporações que degradam os ecossistemas da Terra e as populações que neles vivem, a começar pelos que negam que estejamos enfrentando mudanças climáticas por causa da emissão de poluentes na atmosfera.

Não creio que esses áulicos do veneno sejam convencidos por argumentos racionais e sistemáticos como os que orientam, pois já fizeram uma opção ideológico. Entretanto, precisamos nos dirigir e dialogar pelos que estão sendo alvo do discurso falacioso deles. Essa parece ser uma tarefa complexa e dificil, e que ainda conta com poucas pessoas dispostas e suficientemente informadas para fazê-lo.  Por isso mesmo, os que podem contribuir para ampliar o conhecimento não apenas sobre os danos causados pelo glifosato, mas pelos agrotóxicos em geral.

Mas não dizerem que não falei de flores, posto abaixo um vídeo com a música “Monsanto Years” do álbum homônimo lançado por Neil Young em 2015.

 


[1] https://www.theguardian.com/business/2018/aug/10/monsanto-trial-cancer-dewayne-johnson-ruling

[2]  https://www.cbsnews.com/news/60-minutes-most-famous-whistleblower/

Um pensamento sobre “A indústria dos agrotóxicos e seus áulicos

  1. Arnaldo disse:

    Republicou isso em Portal Verde.

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