Reflexões para um analfabeto político sobre o orçamento de Campos dos Goytacazes

camposCom um dos maiores orçamentos municipais da América Latina, Campos dos Goytacazes precisa de menos terrorismo fiscal e mais politização no debate da distribuição dos recursos públicos

Um dos mais famosos bordões deixados pelo poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht é o que diz que ” o pior analfabeto é o analfabeto político“, que “não sabe … que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio dos exploradores do povo” (a versão completa vai logo abaixo) .

bertolt brecht

Pois bem, nos últimos dias, venho postando aqui reflexões sobre a estrutura do orçamento municipal de Campos dos Goytacazes onde graças a textos bastante diretos, a falácia do terrorismo fiscal é totalmente desnudada, pois se demonstrou que, apesar dos pesares, o município de Campos dos Goytacazes ainda está entre os maiores orçamentos para cidades latino-americanas (no Brasil está entre os maiores 50, superando inclusive capitais).

Essas análises parecem ter criado certo desconforto naqueles que vinham pregando teses relacionadas ao terrorismo fiscal e que apregoam que vivemos algo muito próximo de um Apocalipse financeiro que, exigiria sacrifícios ainda maiores dos servidores públicos e da população mais pobre que depende da qualidade dos serviços por eles prestados.  

Como consequência desse desconforto acabou-se, inclusive, lançando mão de um argumento típico de um analfabeto político quando se diz que o problema de Campos dos Goytacazes não é ideológico (i.e., político) mas financeiro. 

odeio política

O problema para o analfabeto político é que instrumentos de gestão como o orçamento e o plano diretor são essencialmente construídos a partir de decisões essencialmente política, e obedecem aos elementos ideológicos que ditam o comportamento de seus autores. Por isso mesmo, sempre repito o bordão de que se alguém quiser para quem governa um dado prefeito basta olhar para a peça orçamentária ou para o plano diretor que ele apresentou à Câmara de Vereadores.  O fato inescapável  é que  as preferências ideológicas de determinados governantes são sempre transformadas em opções por ganhadores e perdedores nesses instrumentos de gestão. Assim, se olharmos com um mínimo de acuidade, veremos logo as impressões digitais dos ganhadores nas peças orçamentárias, normalmente aqueles que, de alguma forma, apoiaram e financiaram o candidato que venceu o último pleito. 

Então cai nessa conversa de que o problema de Campos dos Goytacazes neste momento é apenas financeiro e não político quem quiser. Aliás, se olharmos para as opções de dispêndio feitas pelo jovem prefeito Rafael Diniz veremos que ele tendeu a desembolsar primeiro para empresas e se sobrasse dinheiro para os servidores da ativa e depois, muito depois, para os RPAs e aposentados.  E isso não se deu simplesmente por um problema de caixa, mas por opção política, ao contrário do que pretendem os analfabetos políticos de ocasião que agora querem dizer como o próximo prefeito deve organizar a sua peça orçamentária, seja ele quem for. Por isso, por exemplo, o analfabeto político jamais pensará em cobrar dos “prefeitáveis” que se comprometam, por exemplo, com a instalação de instâncias democráticas que viabilizem a participação da população na construção do orçamento municipal.  Afinal, o que o analfabeto político quer é que os mesmos de sempre continuem ganhando e que, de preferência, ele esteja esteja incluso.

Aos trabalhadores e à juventude desse rico/pobre município deve restar apenas uma certeza: se não houver organização política para pressionar o próximo prefeito a reinserir as demandas populares no orçamento, os gastos públicos em Campos dos Goytacazes continuarão privilegiando os que mais refastelaram com a parte mais substancial dos bilhões de reais que fluíram pelos cofres municipais para suas contas pessoais, enquanto para os pobres sobraram apenas poucas migalhas. E, sim, tudo em nome do equilíbrio fiscal e da alegria do analfabeto político.

Um pensamento sobre “Reflexões para um analfabeto político sobre o orçamento de Campos dos Goytacazes

  1. Douglas Barreto da Mata disse:

    Professor,
    Que os setores midiáticos e empresariais, e os tolos da classes médias e pobres, que compram tal semiologia, se movimentem neste sentido eu até entendo.
    Afinal, os primeiros têm interesses óbvios, enquanto os demais imaginam que a solução de suas demandas é fazendo eco aos que os chicoteiam o lombo.
    Ou seja, todo mundo faz escolhas a partir do interesse ou do que acredita ser seu interesse.
    O problema real, e já debatemos intensamente isso ontem, é a Academia, ela mesma provedora de “ciência” embarcar nesta fraude.
    Eu sei, eu sei que mesmo a academia não é apolítica, e também se move por interesses desta natureza (política e ideológica).
    Mas estes são os piores dentre todos.
    E há ainda os piores dos piores, que mesmo admitindo que o problema não é econômico, subtraem da política a iniciativa de mudar este quadro, quando advogam que “faltou articulação política e técnica” para solução das demandas.
    Ora, é preciso dizer: AS ELITES FORAM AS PRINCIPAIS ARTICULADORAS POLÍTICAS DO EMPREGO DOS ROYALTIES EM PREJUÍZO DOS MAIS POBRES, E CLARO, EM BENEFÍCIOS DELAS MESMAS (AS ELITES).
    Portanto, ao contrário dos acadêmicos, não houve vácuo político ou técnico (argh, que termo escroto), mas sim ação direcionada e motivada!
    Não é um problema “moral”, resumido em narrativas afeitas ao “lawfare”, mas sim escolha e solidariedade de classe (alta).

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