Tragédia em Manaus

Os hospitais da metrópole amazônica de Manaus estão sem oxigênio

tubos oxigenioFamiliares de pacientes internados com o coronavírus fazem fila com garrafas vazias de oxigênio em frente à empresa Nitron da Amazônia para reabastecê-las. Foto: PictureAlliance /dpa/AP

De Niklas Franzen para o Neues Deutschland

A jornalista brasileira Natuza Nery estava assistindo ao vivo na maior estação de TV do país quando foi tomada por seus sentimentos. O motivo: Manaus, metrópole de floresta tropical do norte do Brasil, se tornou o cenário de um dos episódios mais dramáticos da pandemia da COVID-19.

Na quinta-feira passada, os hospitais locais informaram que ficaram sem oxigênio. As enfermeiras tiveram que ventilar os pacientes manualmente, e vídeos de pessoas carregando garrafas de oxigênio adquiridas de forma privada para hospitais para seus parentes infectados viralizaram nas redes sociais.

Mais de 200.000 pessoas morreram de COVID-19 no Brasil até agora – esse é o segundo maior número depois dos EUA. Manaus já foi gravemente afetada pela crise de saúde no início da pandemia, agora voltou com força total: só nos primeiros doze dias de 2021, mais de 2.000 novos pacientes foram internados nos hospitais. Centenas estão em listas de espera por leitos de terapia intensiva e muitas pessoas estão sufocando em casa sem nem mesmo ver um médico. Enfermeiras desesperadas relatam injetar morfina em pessoas doentes para, pelo menos, aliviar a dor. As agências funerárias locais não conseguem suprir a demanda por funerais.

O rápido aumento de novas infecções pode ser devido a uma mutação viral recentemente descoberta no estado do Amazonas. Mas as medidas negligentes de isolamento e a negligência da população também são apontadas como motivos. Houve festas com milhares de convidados, as pessoas saíram às ruas sem máscaras, as lojas e os bares lotaram. Muitas comemorações de Natal e Ano Novo aconteceram sem restrições.

O governador Wilson Lima ordenou agora um toque de recolher entre 19h e 6h. As vítimas de COVID-19 foram transportadas de avião para outros estados, assim como 61 bebês prematuros de hospitais locais. A localização remota de Manaus provavelmente contribuiu para a escassez de oxigênio. Ironicamente, o país vizinho e em crise, a Venezuela, agora está ajudando. E celebridades arrecadam doações online para enviar garrafas de oxigênio para Manaus.

Foi apenas no final de dezembro que o governador de direita Wilson Lima retirou um decreto para um novo bloqueio. Políticos aliados do presidente Jair Bolsonaro, incluindo o seu filho e deputado federal Eduardo Bolsonaro,  celebraramo recuo do governador amazonense. O governo federal enviou oxigênio em aeronaves militares na sexta-feira – de acordo com reportagens da mídia, a quantidade cobriu apenas 11% da necessidade diária de Manaus.

“Fizemos nossa parte”, defendeu o presidente Jair Bolsonaro, que culpa as autoridades locais pelo caos. O governo federal havia sido avisado sobre o colapso uma semana antes. Em vez de criar um plano de emergência, o ministro da Saúde de Bolsonaro, Eduardo Pazuello, recomendou que os hospitais dessem aos seus pacientes hidroxicloroquina – um medicamento contra a malária cujos estudos não mostraram eficácia contra a COVID-19. 

fecho

Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s