Os péssimos resultados de Campos dos Goytacazes no IDEB são apenas a ponta de um imenso iceberg de destruição da educação municipal

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Os péssimos resultados  obtidos, mais uma vez,  por Campos dos Goytacazes na edição de 2022 do chamado Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) são apenas a ponta de um gigante iceberg, e revela que há uma persistente crise estrutural na rede municipal de educação. 

Mas relatos que tenho recebido de pais e profissionais da educação municipal revelam fatos gravíssimos que estão ocorrendo em muitas escolas municipais, onde turmas inteiras estão sem professores e, pior, em edifícios escolares em que inexistem até portas nas salas de aula.

Uma colega que atua na rede estadual de ensino na Baixada Campista me relatou que a capacidade de aprendizagem dos alunos que chegam da rede municipal é tão precária que, em sua escola, um primeiro esforço é realizar um nivelamento para que os jovens estudantes possam ter um mínimo de chance para que possam evoluir dentro do sistema estadual.

A situação, segundo essa mesma colega, chega a ser bizarra, pois na escola municipal que fica ao lado da sua, na maioria do tempo as crianças ficam sem qualquer atividade escolar, na medida em que inexistem professores para dar aula. Com isso, o ambiente da escola serve apenas para que as crianças se alimentem, já que não efetivamente não existe um processo de aprendizagem ocorrendo.

O problema não é falta de dinheiro, mas de projeto de escola

Alguém mais desavisado que o fato de Campos dos Goytacazes estar na rabeira do IDEB no estado do Rio de Janeiro se deve à falta de recursos financeiros por parte da Prefeitura Municipal.  Acontece que Campos dos Goytacazes ainda possui um dos maiores orçamentos municipais do Brasil e, por extensão, de toda a América Latina. Aliás, se olharmos o montante gasto com a educação municipal, veremos que um dos maiores orçamentos de secretarias municipais é o da Educação.

Desta forma, a situação catastrófica em que a educação municipal me faz lembrar da frase lapidar que do  fundador da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o professor Darcy Ribeiro, caracteriza a crise da educação brasileira. Darcy dizia que  “a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas um projeto“.  

Parece óbvio que o projeto identificado  por Darcy Ribeiro visa manter os filhos da classe trabalhadora em condição de completa desigualdade de oportunidades, não me que lhes é negada a possibilidade de uma educação que efetivamente os habilite a se inserir no mercado de trabalho com alguma chance de sucesso.

Ao se negar um ensino minimamente de qualidade às crianças campistas, o que se faz é mantê-las em um ciclo vicioso de pobreza e violência, esta é a mais pura verdade.

O curioso é que vimos em plena pandemia da COVID-19 o Ministério Público Estadual pressionando a Prefeitura de Campos dos Goytacazes a fazer o retorno das aulas, ainda que se colocasse em risco as crianças e suas famílias pela possibilidade de aumento de transmissão do coronavírus.  Mas não vejo movimento semelhante para cobrar que as crianças tenham professores e ambientes escolares que lhes ofereça mais do que o pouco sendo oferecido neste momento.

Chove veneno: estudo mostra que agrotóxicos cancerígenos são lançados por avião nas regiões canavieiras de São Paulo

Químicos associados ao câncer foram lançados de avião sobre os pólos da cana-de-açúcar no estado de São Paulo.  Substâncias potencialmente cancerígenas foram encontradas em 12 produtos. Em Barretos, câncer aumentou 63% em homens e 28% em mulheres 

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Por Hélen Freitas, Agência Pública/Repórter Brasil

Estudo inédito revela que 30% dos agrotóxicos aplicados de avião em plantações de cana-de-açúcar de São Paulo têm associação ao desenvolvimento de câncer. Para os pesquisadores, essa pode ser uma das explicações para o alto índice da doença nesses locais. Com uma área plantada superior ao estado da Paraíba, a cana paulista abastece os mercados nacional e internacional de açúcar e biodiesel.

Embora cruciais para a saúde da população, as informações sobre quais agrotóxicos são aplicados de avião não são abertas ao público e foram obtidas, pela primeira vez, pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo. Eles serviram de base para pesquisa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) sobre a relação entre as doenças que esses agrotóxicos podem causar e as enfermidades que ocorrem nas regiões onde foram aplicados. Chamou a atenção dos pesquisadores a prevalência de casos de câncer e a grande quantidade de pesticidas associados a essa doença.

Foram analisadas as aplicações feitas em 2019 em 63 cidades, todas nas regiões de Barretos, Batatais, Presidente Prudente, Ribeirão Preto e São Joaquim da Barra.

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Sete substâncias potencialmente cancerígenas foram encontradas em 12 produtos pulverizados nos canaviais. Em grande parte dos casos, o câncer só aparece depois de anos de exposição aos venenos, sendo difícil fazer a correlação direta entre a aplicação e a intoxicação. “Não posso afirmar que a pulverização está causando câncer nessas regiões, mas o que a nossa análise mostra é que esse é um fator de risco e que existe câncer acima da média nessas regiões”, afirma a engenheira química e professora aposentada da UFSC Sônia Hess, uma das responsáveis pela pesquisa.

A Basf é a fabricante do agrotóxico associado ao desenvolvimento de câncer mais aplicado sobre a área em questão. Com nome comercial de Opera, o epoxiconazol é proibido na União Europeia devido a evidências de que pode provocar câncer no fígado, problemas para o sistema reprodutivo e no desenvolvimento do feto. Desde 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reavalia a permissão para uso desse agrotóxico no país devido aos seus riscos para a saúde. 

A empresa, entretanto, garante que seus produtos são seguros e que realiza testes e avaliações, além disso afirma que são aprovados pelas autoridades competentes. “Seguindo estas premissas, o epoxiconazol continua sendo usado com segurança desde 1993 em mais de 60 países e contribui com sucesso para manter o potencial produtivo dos cultivos recomendados”, destacou a Basf. Veja a resposta.

Outros agrotóxicos, como o glifosato e o 2,4-D, também aparecem na lista de químicos potencialmente carcinogênicos pulverizados no céu paulista. Classificados pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer como “provavelmente” e “possivelmente” cancerígenos, respectivamente, foram os agrotóxicos mais vendidos no Brasil em 2020, segundo o Ibama.

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Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que 10% das substâncias vendidas no Brasil são utilizadas na cana-de-açúcar, estando esse cultivo atrás somente da soja e do milho. A aplicação desses agrotóxicos acontece, prioritariamente, por meio aéreo.

 Alternativas mais seguras, como uso de tratores vedados, são descartadas pelo grupo que representa o setor da cana. “Seria absolutamente inviável a aplicação de defensivos agrícolas por meio manual, com equipamentos costais, ou mesmo por tratores com braços extensores, uma vez que o canavial é um extenso e denso maciço vegetativo, o que impede o acesso de pessoas e equipamentos agrícolas”, afirma a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) por meio de sua assessoria de imprensa. Confira aqui a resposta.

Aumento de câncer

Os casos de câncer nas cinco microrregiões têm crescido ao longo dos anos. Barretos é a que mais registrou mortes por câncer. De 2010 para 2019, houve um aumento de 63% dos casos entre os homens e de 28% entre as mulheres. Além disso, enquanto 120 homens a cada 100 mil habitantes morreram por câncer no Brasil em 2019, o número de óbitos salta para 214 nessa microrregião.

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O estudo aponta três fabricantes que detêm 41% dos produtos utilizados na pulverização aérea de cana nas regiões: Syngenta, Bayer e FMC, multinacionais europeias e norte-americana que têm o Brasil como um dos maiores compradores de pesticidas proibidos em seus países de origem.

A Anvisa questiona o critério usado pelos pesquisadores para classificar agrotóxicos associados ao câncer. A agência afirma que tanto o glifosato quanto o 2,4-D foram reavaliados recentemente e não foram encontradas evidências suficientes que associam essas substâncias ao desenvolvimento de câncer. Confira a resposta na íntegra.

O Ministério da Agricultura diz que “se forem atendidas as normas e recomendações constantes nas bulas dos produtos, as atividades aeroagrícolas são seguras para a população”.

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As empresas e sua principal representante, a CropLife, seguem a linha de argumentação da Anvisa e do Ministério da Agricultura. Segundo elas, seus produtos são seguros para a população e meio ambiente, caso a bula seja respeitada. Confira as respostas na íntegra,

Regras desrespeitadas

A pulverização aérea de agrotóxicos pode ser um risco para as pessoas e para o meio ambiente. Por isso o Ministério da Agricultura define regras que proíbem o uso de avião na aplicação de agrotóxicos em áreas a menos de 500 metros de distância de cidades, povoados e mananciais utilizados pela população, ou de 250 metros de moradias isoladas. Caso não seja possível respeitar essas distâncias, o aplicador é obrigado a comunicar previamente aos moradores da área e não pode passar por cima das casas.

Mas há diversas denúncias de descumprimento, afirma Diógenes Rabello, pesquisador da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e morador de assentamento na região de Presidente Prudente. Ele relata que as pessoas sentem o cheiro forte dos agrotóxicos e depois têm dores de cabeça e coceiras pelo corpo.

Estudo conduzido pela Unesp registrou ainda os impactos nas plantações dos assentamentos próximos. Dias após a pulverização aérea, é possível perceber o apodrecimento das frutas ainda no pé, um dos primeiros sinais de contaminação, segundo os pesquisadores. “É um trabalho de meses perdido”, afirma Rabello.

A mortandade de abelhas é outro sinal da contaminação. 17 produtos utilizados na cana possuem ingredientes tóxicos para esses insetos, de acordo com a análise da Defensoria Pública e UFSC. 

O Altacor foi o mais usado pelos produtores. Esse inseticida da FMC Química do Brasil é feito à base de clorantraniliprole, ingrediente classificado como “muito perigoso ao meio ambiente”. Estudos apontam efeitos de longa duração sobre a capacidade locomotora de abelhas, danos ao sistema imunológico e efeitos nocivos sobre o desenvolvimento de larvas. Questionada, a empresa afirmou que “este produto foi considerado apto para uso nos cultivos registrados, seguindo as recomendações da bula”, entretanto, não respondeu sobre a relação do agrotóxico produzido por ela com a mortandade de insetos.

Segundo a Unica, as empresas buscam constantemente atualizar sua base cartográfica para definição das zonas em que serão aplicados os agrotóxicos. A entidade afirma que a falta de formalização da apicultura impossibilita que “as usinas tenham conhecimento de sua existência e localização, portanto, impedindo que sejam determinadas como zonas de restrição no momento da aplicação”.  

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de Agrotóxicos no Brasil. A cobertura completa está no site do projeto.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Pública [Aqui!].

Academia Brasileira de Ciências apresenta propostas para reduzir contaminação por mercúrio, desafio nacional

Academia defende que garimpo ilegal seja banido no Brasil

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Garimpo ilegal faz subir a níveis perigosos os índices de mercúrio em peixes da Amazônia

A Academia Brasileira de Ciências (ABC) define a contaminação por mercúrio como um desafio nacional que deve mobilizar todos os níveis governamentais, o setor privado e as organizações sociais, em documento publicado nesta terça-feira (11). O estudo faz um diagnóstico das emissões do metal no país e lista oito recomendações para lidar com esse desafio, iniciando um debate sobre a gestão do metal no Brasil.

“A contaminação por Mercúrio representa uma grave ameaça a todo o ecossistema do nosso País, de Norte a Sul e de Leste a Oeste”, alerta o professor Jailson Bittencourt de Andrade, vice-presidente da ABC e coordenador do estudo.

O documento Contaminação por mercúrio – Por que precisamos de um plano de ação? explica que o mercúrio é tóxico por conta de sua alta afinidade com compostos de enxofre presentes em proteínas e em muitas enzimas essenciais para o metabolismo das células humanas. Quando o metal se liga a enzimas e outras proteínas, elas são inativadas de forma irreversível, o que pode gerar graves complicações clínicas, como vertigens, tremores e danos aos pulmões e ao cérebro.

Extração de ouro é atividade que mais contribui para emissões de mercúrio no Brasil

O Grupo de Trabalho que realizou o estudo aponta que, apesar de várias localidades brasileiras serem afetadas pela contaminação, o mercúrio está fortemente associado ao garimpo ilegal e ao uso do metal para extração do ouro. É a atividade que mais contribui para as emissões de mercúrio no país. A técnica usada particularmente na extração ilegal faz com que o ouro e o mercúrio se fundam em um amálgama, para que o metal precioso possa ser extraído de rochas e areia. Depois, o amálgama é aquecido, fazendo o mercúrio evaporar e passar a circular na atmosfera.

A ABC expressa, no documento, sua preocupação com o garimpo realizado em terras indígenas, o que é proibido pela Constituição. Entretanto, a invasão a esses territórios segue acontecendo de maneira sistemática. Isso impacta diretamente as populações indígenas, inviabilizando a continuidade de seus modos de vida e de suas culturas. A entidade aponta a necessidade da proibição irrestrita do garimpo ilegal no país.

“O mercúrio é um legado da irresponsabilidade no trato do meio ambiente que vai ainda assombrar a humanidade por gerações”, ressalta Luiz Drude de Lacerda, Membro Titular da ABC e integrante do Grupo de Trabalho.

Exposição humana se dá principalmente por pescado contaminado

O grupo observa, no entanto, que muitos problemas de contaminação ambiental por mercúrio são devidos não apenas ao aumento das emissões, mas também à tendência de maior concentração do metal em peixes, humanos e outros organismos, observada ao longo dos últimos 20 anos. O fenômeno é atribuído à alteração do uso do solo, particularmente na conversão de florestas para extração de madeira e para a agropecuária.

A exposição humana ao mercúrio se dá principalmente pela ingestão de pescados. Assim, os riscos à saúde são ainda maiores em populações ribeirinhas da Amazônia e em pescadores artesanais do litoral brasileiro. O Grupo de Trabalho da ABC recomenda que sejam subsidiadas medidas para melhorar a segurança alimentar dessas populações, com um esforço continuado de monitoramento da contaminação de peixes e outros produtos da aquicultura.

O grupo defende que o Brasil volte a ser participante ativo na Convenção de Minamata, que traz uma série de medidas de controle sobre o uso do mercúrio em todo o mundo. O tratado internacional foi firmado em 2013 e tem por objetivo proteger o meio ambiente dos efeitos adversos do metal. O texto ressalta que o Brasil chegou a sediar a Conferência sobre Mercúrio como Contaminante Global, em 1999, mas que as iniciativas do país no âmbito multilateral vêm se reduzindo drasticamente nos últimos anos.

Outras sugestões presentes no documento são a atualização dos inventários de emissões de mercúrio, a substituição de produtos que contêm o metal por alternativas e ainda o desenvolvimento e a implementação de tecnologias voltadas à redução de emissões de fontes incidentais de mercúrio. Por fim, a ABC se compromete a realizar reuniões regionais, nacionais e internacionais, identificando gargalos e propondo mais soluções.

México encontra agrotóxicos em sangue de crianças após décadas de desastre ambiental

pesticidas-Salamanca-996x567Desde o fechamento da unidade industrial, o governo federal investiu mais de 21 milhões de pesos mexicanos (pouco mais de US$ 1 milhão hoje) no Plano Salamanca para remediar os danos. No entanto, seus objetivos permaneceram inacabados. Crédito da imagem: Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais do México.

Embora na maioria das amostras (solo e sangue) analisadas no estudo , os níveis de agrotóxicos foram observados abaixo do limite de detecção e a dose estimada de exposição diária (calculada de acordo com a concentração de diclorodifeniltricloroetano no solo) não ultrapassou o nocivo, alertam pesquisadores que décadas depois os contaminantes persistem no meio ambiente e nas pessoas, mesmo aquelas que não foram diretamente expostas.

A fonte, segundo o estudo publicado na revista Environmental Geochemistry and Health, seria a unidade industrial da empresa Tekchem SAB de CV que fechou em 2007 por pressão de ativistas ambientais que exigiam a reparação dos danos causados ​​por um vazamento químico que ocorreu em 11 de setembro de 2000.

Os efeitos dessas toxinas no neurodesenvolvimento infantil é um problema que afeta vários países da América Latina e Caribe. Diana Olivia Rocha, pesquisadora da Universidade de Guanajuato e uma das autoras do estudo, disse ao SciDev.Net que em outras regiões do México onde foi registrada a presença de agrotóxicos organoclorados, “o DDT foi usado mais para o controle de vetores como a malária”, mas na realidade na zona de Salamanca esta doença “não está presente”.

Por esse motivo, os autores estimam que a fonte mais provável dos contaminantes são os restos que permaneceram após o fechamento da planta industrial da Tekchem. O toxicologista José Dórea, que não participou da investigação, explicou ao SciDev.Net que a exposição de menores a esse tipo de substância pode afetar seu neurodesenvolvimento e causar atrasos no aprendizado. “Meninos e meninas são a população mais afetada”, destaca.

“O DDT foi usado mais para o controle de vetores como a malária, [mas na realidade na área de Salamanca esta doença] não está presente”

Diana Olivia Rocha, pesquisadora da Universidade de Guanajuato

Agrotóxicos como o DDT são de especial relevância por terem a característica de aderir ao tecido adiposo dos seres vivos. Além disso, esses tipos de substâncias são considerados Poluentes Orgânicos Persistentes, ou seja, possuem uma vida útil muito longa.

Devido a isso, mesmo em países como México e Brasil onde seu uso já foi proibido, esse contaminante pode continuar sua distribuição pela cadeia alimentar.

Além disso, se uma mulher que foi exposta a esses tipos de contaminantes engravidar, seu bebê também poderá receber esses agrotóxicos através do leite materno.

De acordo com uma compilação publicada por Dórea, essa vulnerabilidade para bebês foi documentada no México, Brasil, Nicarágua, Equador e Guatemala. “Por isso falamos de um legado de agrotóxicos organoclorados”, destaca o especialista.

Sobre o desastre ambiental ocorrido em Salamanca, a professora e ativista ambiental Maura Alicia Vázquez Figueroa disse ao SciDev.Net que “a vida mudou para muitas pessoas como resultado dessa contingência ambiental”. Ela estava em Salamanca quando ocorreu o vazamento e lembra que a primeira coisa que notou foi um aroma penetrante.

“O cheiro é semelhante ao alho, mas podre e bastante concentrado.” A professora foi uma das primeiras a documentar o ocorrido a pedido da Frente Zapatista de Libertação Nacional, da qual ela era integrante. Junto com o marido, ela foi aos bairros adjacentes à unidade industrial para coletar seus depoimentos em vídeo.

À frente da associação civil “Humanos por Amor à Mãe Terra”, Vázquez e seus colegas começaram a organizar os Toxitours e o Toxifest, onde fizeram um tour pela área afetada como forma de protesto.

Suas ações chamaram a atenção da imprensa e ela acredita que foi uma das principais razões pelas quais a Tekchem foi fechada. A professora destaca a reportagem publicada pela jornalista Marcela Turati no jornal Excelsior, onde caracteriza Salamanca como a “cidade do veneno”.

Após o fechamento da unidade industrial, o governo do ex-presidente Enrique Peña Nieto investiu mais de 21 milhões de pesos mexicanos (pouco mais de US$ 1 milhão hoje) no Plano Salamanca para remediar os danos. No entanto, seus objetivos permaneceram inacabados.

Em 22 de novembro de 2021, por decreto presidencial do presidente Andrés Manuel López Obrador, a remediação continuou. De acordo com os pedidos de informação consultados, como resultado do decreto, mais de 31 milhões de pesos mexicanos (cerca de US$ 1,5 milhão) foram alocados para esse fim.

Este artigo originalmente escrito em espanhol foi produzido pela edição da América Latina do  SciDev.Net e publicado [Aqui!].

As pontes esfareladas da BR-319 dizem tudo sobre a incompetência de Jair Bolsonaro e Tarcísio Freitas

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Jair Bolsonaro gosta de falar que seu governo é composto por pessoas selecionadas por sua capacidade técnica, sendo o ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio Freitas (atual candidato a governador em São Paulo) um dos exemplos sempre citados pelo presidente da república. 

Se é assim, o que dizer das duas pontes que desabaram entre o dia 28 de setembro e 08 de outubro em um espaço de apenas 2 km dentro do estado do Amazonas? (ver ilustração abaixo).

Pontes do Jair e do Tarcísio

A verdade é que há algo de muito estranho nesses dois desabamentos, pois a engenharia de estradas no Brasil era conhecida até agora por sua excelência e alta qualdade técnica. Aliás, fico curioso em saber quem construiu essas duas pontes que agora vão precisar ser reconstruídas, pouco depois de sua inauguração.

Pelo jeito, a excelência técnica dos ministros de Jair Bolsonaro só é boa mesmo quando se trata de deixar a boiada passar.  Aliás, como mostra uma reportagem do site “The Intercept” publicada nesta segunda-feira mostra não apenas que o nível de investimento em estradas durante o governo Bolsonaro é o menor em 10 anos, como também a gestão de Tarcísio de Freitas conseguiu piorar as condições gerais das rodovias em todo o Brasil.

Pior ainda é saber que só na Codevasf, o Tribunal de Contas da União identificou uma fraude em licitações que chegou a R$ 1 bilhão durante  a gestão de Jair Bolsonaro, o que sem dúvida é um recorde, contrariando toda a propaganda de que não existe corrupção no governo federal. Pelo jeito, existe e muita. Por isso mesmo, se eleito, o ex-presidente Lula terá a obrigação de acabar com o sigilo de 100 anos colocados por Jair Bolsonaro sobre várias áreas obscuras de sua atuação.

 

Patrões da mídia corporativa são antes de tudo ávidos rentistas que amam Jair Bolsonaro e sua política de fome

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Neste domingo dois grandes veículos de mídia (O Globo e Folha de São Paulo) fizeram editoriais cobrando clareza nos planos econômicos do ex-presidente Lula. O primeiro fincando a demanda nos planos de reindustrialização e o segundo veio com uma manchete tirada do estrategista de Bill Clinton,  James Carville Jr., que cunhou o engenhoso mote “É a economia, estúpido”, que a Folha sacanamente substituiu por Lula.

E as perguntas a serem feitas por Jair Bolsonaro? Para esse nem editorial, nem uma matéria que questiona suas políticas econômicas centradas na desindustrialização que Lula promete reverter.  Mas um analista minimamente informado dos investimentos feitos pelas famílias Marinho e Frias vai logo saber porque seus veículos de mídia não perguntam para Bolsonaro. É que eles estão muito felizes com as altas taxas de juros que propiciam uma renda muito maior do que sua atividade formal que é o da comunicação.

Aliás, se estendermos a teia analítica para outros veículos, a Band TV por exemplo, encontraremos representantes do agronegócio que vem se refastelando com as políticas de desmanche ambiental do governo Bolsonaro.

Assim sendo, muito se fala das redes invisíveis de “fake news” do Bolsonarismo, que são reais e que distribuem uma ampla gama de mentiras, mas se olharmos mais perto, veremos que os grandes veículos de mídia também distorcem a realidade a partir de suas notícias para continuarem propriciando a seus donos as rendas milionárias que o rentismo impulsionado por Jair Bolsonaro lhes oferece.

Porto do Açu e sua grilagem estatal de terras são objeto de matéria no “Estadão”

Em um fato raro nos dias atuais, o jornal “Estado de São Paulo” publicou hoje um artigo assinado pelo jornalista Vinicius Neder que aborda as escabrosas desapropriações de terras promovidas pelo governo do ex-(des) governador Sérgio Cabral no V Distrito de São João da Barra, inicialmente em benefício de Eike Batista, e posteriormente do fundo de “private equity” que controla atualmernte o Porto do Açu, o EIG Global Partners.

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Ainda que a matéria siga o percurso corriqueiro de “ouvir as partes”, a matéria de Vinicius Neder traz elementos importantes sobre a persistente falta de pagamento por parte do Estado do Rio de Janeiro às centenas de pequenos agricultores que tiveram suas terras expropriadas para beneficiar os interesses corporativos e especulativos de Eike Batista e do EIG Global Partners.

Estando dentre os que foram ouvidos por Vinicius Neder (junto com o advogado Rodrigo Pessanha e com a proprietária rural atingida pelo empreendimento Noêmia Magalhães), quero relembrar a minha caracterização de que o que temos diante de nós em São João da Barra é um caso exemplar do Estado agindo como grileiro de terras de grandes corporações, deixando na completa miséria quem tinha nas pequenas propriedades expropriadas a única fonte de produção e reprodução social.

Interessante ainda notar que a matéria joga luz sobre uma estratégia (inderecorosa se não ilegal) que está sendo adotada que está sendo comprar (provavelmente via contratos de gaveta) propriedades expropriadas cuja indenização está sendo negada aos agricultores por parte do governo do Rio de Janeiro. Essa tática que é apresentada sem muita cerimônia pelo presidente da Prumo Logística, Rogério Zampronha, expressa claramente como uma corporação controlada por um fundo especulativo internacional trata aqueles que foram violentamente removidos de suas terras. 

Finalmente, na versão impressa está presente outro artigo assinado por Vinicius Neder com declarações do professor da UFRJ, Mauro Osório, onde é dito com todas as palavras que a construção do Porto do Açu não é garantia de desenvolvimento econômico para o Norte Fluminense. A questão é que isto sempre foi dito por mim e outros pesquisadores que têm acompanhado o caso do Porto do Açu. Aliás, basta ir no V Distrito para ver todas as promessas douradas de Eike Batista não passavam de pirita, aquele famoso “ouro de tolo”.

Ainda sobre os resultados eleitorais: se Bolsonaro foi derrotado, por que dizer o contrário?

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Uma das questões que mais me intrigam no pós-primeiro turno é a insistência de muitos, inclusive de apoiadores do ex-presidente Lula, em ignorar uma evidência: Jair Bolsonaro perdeu feio o primeiro turno, apesar da “pequena” desvantagem que ele obteve nas urnas.  

Mas vamos lá aos fatos: em uma situação muito peculiar de financiamento extra campanha, principalmente via o Auxílio Brasil e o chamado “orçamento secreto”, as forças que apoiam Jair Bolsonaro investiram bilhões de reais para vencerem em primeiro turno as eleições presidenciais. A certeza de vitória era tanta que, desafiando as pesquisas eleitorais, Bolsonaro dizia que venceria em primeiro turno. A coisa era considerada delírio, quando se tratava apenas de um cálculo mal feito.

Algumas análises já mostraram que o voto de Jair Bolsonaro se interiorizou, de forma a compensar o recuo de votos em grandes cidades, especialmente naquelas onde o desemprego avançou mais. Essa tendência, convenhamos, é mais do que normal, pois não foi nas capitais que o governo Bolsonaro enfiou mais dinheiro, mas sim nas regiões mais interiores, principalmente das regiões norte e centro-oeste.

Por outro lado, as análises que enfatizam (e eu cito apenas aquelas que não são feitas para turbinar a candidatura de Jair Bolsonaro) um aspecto derrotista dos resultados desprezam o fato óbvio de que Lula, desafiando a máquina eleitoral do governo federal, venceu em cidades importantes, não se restringindo a derrotar Bolsonaro no Nordeste.  Se fosse assim, o destino eleitoral de Bolsonaro teria sido aquele que ele propalava em seus comícios e não aquele que as urnas entregaram.

O Brasil sempre foi dividido, qual é a novidade?

Outras análises de teor derrotista tendem a enfatizar, e lamentar, o fato de que o Brasil saiu dividido das urnas. Ora, quem diz isso parece desconhecer a história brasileira. A verdade é que sempre fomos divididos, e os resultados eleitorais só mostraram isso mais claramente porque certas forças da direita tenderam ao desaparecimento, com os seus votos coalescendo em torno de Jair Bolsonaro.  Um exemplo disso foi o PSDB que de partido dominante de eleições passadas passou a ser minoritário até em São Paulo.

Assim, o que assistimos foi uma unificação das forças de direita em torno de Jair Bolsonaro, o que atende a interesses diversos até do atual presidente.  Como já vimos isso em outros períodos históricos, qualquer análise que aponte uma suposta “fascitização” atual do Brasil, despreza o fato de que nunca fomos um país efetivamente democrático. Quando muito, somos um simulacro de democracia onde direitos fundamentais só são concedidos às elites, enquanto a maioria da população fica relegada ao descaso e à violência do Estado brasileiro.

Quem despreza o fato de que nossa economia dependente é baseada na opressão e na violência é que acaba caindo nesse tipo de lamento. Quem entende minimamente a nossa formação capitalista dependente deveria se concentrar em organizar a maioria que votou em candidatos opostos a Jair Bolsonaro, em vez de perder tempo com análises que só servem para desmobilizar a classe trabalhadora e a juventude.

A  verdade é que já éramos divididos e continuaremos divididos depois do segundo turno, independente de quem ganhar as eleições.  É que eleições são apenas momentos muito específicos da luta de classe que ocorrem em um terreno muito hostil aos que precisam ter uma mudança radical na realidade em que estamos imersos.

Mas no momento, a tarefa posta é aumentar a votação do ex-presidente Lula para derrotar Bolsonaro nas urnas. Derrotar o seu projeto econômico e social vai ser algo que deverá transpor, e muito, o marco restrito das eleições.

Trincas em barragem de mina de ouro em Santa Bárbara (MG), uma história que começou em 2019

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Barragem de mineração de ouro da AngloGold Ashanti, a Córrego do Sítio II, ameaça romper no município de Santa Bárbara (MG) com alto potencial de destruição e contaminação ambiental

Em janeiro de 2019 este blog publicou um alerta feito pela médica veterinária e proprietária rural Sara Xavier que alertava sobre os riscos colocados por uma barragem da mineradora sul africana AngloGold Ashanti no município de Santa Bárbara (MG) onde era feito um alerta sobre os graves riscos que aquela estrutura colocava sobre os recursos hídricos e o meio ambiente (ver abaixo).

Uma nova postagem foi feita em maio de 2021 para confirmar que o alerta feito por Sara Xavier tinha fundamental, pois um primeiro rompimento teria ocorrido em uma das estruturas mantidas pela AngloGold em Santa Bárbara, causando uma grave contaminação no Rio Conceição, na medida em que um dos principais contaminantes originados na mineração de ouro é o arsênio.

 (Divulgação / AngloGold Ashanti)

Pois bem, hoje a mídia corporativa está informando que a barragem da AngloGold em Santa Bárbara apresentou processo de trincamento, originando a necessidade de se elevar o grau de monitoramento da situação, que estaria ainda no chamado nível 1 quando a gravidade ainda é pequena (ver imagem abaixo).

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Como a primeira informação da AngloGold de que haveria apenas uma trinca na barragem já foi desmentida por informações dadas pela Agência Nacional de Mineração (ANM), não há porquê acreditar na versão da empresa.  Como Sara Xavier já havia alertado em 2019,  o problema que seria causado pelo rompimento desta barragem deveria ser de alta preocupação por parte das autoridades mineiras. Mas com Romeu Zema reeleito em primeiro turno, a possibilidade é que nada seja feito.

Convocação para apoiar financeiramente o “Faixa Livre”

O Brasil passa por uma grave crise social e econômica. Um pacote cruel de mudanças vem sendo executado pelo governo Bolsonaro (ie.;  reformas trabalhista, previdenciária e política) sem que a classe trabalhadora seja ouvida. Desacreditada, os setores da classe política aliados a Jair Bolsonaro se propõe a levar a ferro e fogo todas as medidas a ela ditadas por banqueiros, empresários e detentores do capital hegemônico, enquanto o trabalhador, seja ele da cidade ou do campo, é relegado.

Por isso, é a posição deste blog que mais do que nunca é preciso participar, manter uma voz ativa e agir. Neste sentido, o programa Faixa Livre, no ar há 27 anos – desde dezembro de 1994 –,  que surgiu da inquietação de entidades sindicais e associativas, que observavam o avanço dos ideais neoliberais a partir da eleição de Fernando Henrique Cardoso, como um projeto radiofônico, e segue como tribuna independente de resistência e discussão sobre o momento grave que o Brasil atravessa.

O Faixa Livre, que sempre ofereceu voz ativa para o contraditório, para o debate franco das questões que afetam as empresas públicas, os trabalhadores e os excluídos. Sou testemunha viva de que no Faixa Livre sempre há espaço para ideias e críticas, sem que haja qualquer limitação.

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Atualmente o programa é transmitido ao vivo pelo canal Faixa Livre, no Youtube, de segunda a sexta-feira, das 8h às 10h, com seu conteúdo disponibilizado no podcast Programa Faixa Livre, nos mais diferentes agregadores. Além disso,  o Faixa Livre om um site próprio – www.programafaixalivre.com.br, perfis no Facebook – programafaixalivre -, no Twitter – @pgmfaixalivre – e no Instagram – pgmfaixalivre, bem como um grupo no Telegram – Programa Faixa Livre.

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