Universidades estaduais sob ataque e os riscos disso para o futuro

Uma rápida análise do que anda acontecendo em diferentes estados brasileiros mostrará que algo comum está ocorrendo, e não é belo. Falo aqui do ataque em regra às universidades estaduais, e que é mais visível em estados como o Rio de Janeiro e Paraná, mas também está se manifestando em Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia.  A escusa dos diferentes governadores para negar os recursos necessários para fazer funcionar as universidades é a crise financeira dos estados.  Este argumento, falso, quero logo dizer, está sendo utilizado em estados como a Bahia onde a crise financeira sequer existe.  Além disso, esse ataque às universidades estaduais transpõe os limites partidários, pois enquanto no Rio de Janeiro e Paraná os governadores são do PMDB e do PSDB, em Minas Gerais e Bahia, ambos os governadores são do PT.   Este raro e infeliz momento de unidade partidária é explicado pelo fato de que todos esses partidos estão aplicando políticas neoliberais quando miram nas universidades estaduais em nome da manutenção do fluxo do dinheiro público para o sistema rentista.

Mas afora os aspectos intrínsecos que caracterizam as universidades públicas no tocante à produção de conhecimento científico e formação de recursos humanos estratégicos, estas instituições trazem consigo um elemento bastante singular que é o de serem instrumentos bastante eficientes de descentralização espacial do ensino público superior. É que até recentemente as universidades federais tinham sua restringida às capitais ou cidades médias, deixando o oferecimento de ensino superior interiorizado para as universidades estaduais ou, ainda, para instituições privadas de ensino.  O melhor exemplo que eu conheço do papel dinamizador das universidades estaduais na expansão de oportunidades de ensino qualificado é o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que foi criada em 1962 para servir como elemento de dinamização econômica da região em torno da cidade de Campinas, e hoje é simplesmente uma das melhores universidades da América Latina. O fato é que junto com a evolução da Unicamp houve uma vigorosa transformação das bases produtivas existentes em Campinas, mas houve um efeito multiplicador que provocou um processo de desenvolvimento da economia regional.

Se olharmos o papel que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) cumpriu nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, eu diria que a instalação da instituição ultrapassou o que foi alcançado pela Unicamp, simplesmente porque a realidade social e econômica existente era muito mais precária do que a existente na região de Campinas.  Como estou na Uenf há quase duas décadas pude presenciar e participar das mudanças que a universidade gerou desde 1993.  Um exemplo bem básico é o fato de que hoje muitas prefeituras possuem pessoal técnico formado pela Uenf, e que estes profissionais são naturais desta região, sendo que uma parte não desprezível só pode obter um diploma de ensino superior por causa dela.

Outro aspecto bastante significativo, e que é muito pouco mencionado, é que as universidades estaduais são grandes consumidoras do comércio local, além de oferecerem oportunidades de emprego, seja diretamente dentro da universidade ou fora dela a partir da capacidade de seus profissionais de empregarem.  A Uenf é um excelente exemplo disso, pois sendo a maior instituição estadual fora da região metropolitana do Rio de Janeiro, a sua execução orçamentária serviu como um dínamo para a economia não apenas de Campos dos Goytacazes, mas também de todos os municípios onde haja algum nível de atuação de seus laboratórios de pesquisa e unidades de ensino à distância.

Assim, ao atacar as universidades estaduais, o que os governos de plantão estão fazendo é praticar vários atentados contra o presente e o futuro das regiões do interior. É que a inviabilização das universidades estaduais não apenas fecha espaços de desenvolvimento científico e tecnológico e de formação de recursos humanos, mas também contribuem para a precarização do serviço público e, de quebra, contribuem para a quebra da economia regional. Em outras palavras, o ataque às universidades estaduais traz sérias consequências para aquelas regiões mais distantes das capitais, onde normalmente o ambiente econômico é deprimido historicamente, como é o caso lapidar do Norte Fluminense.

No caso da Uenf, dadas todas as evidentes demonstrações do seu potencial dinamizador para o Norte/Noroeste Fluminense, a lógica ditaria que, neste momento, já houvesse um poderoso movimento político em sua defesa. Esse movimento deveria incluir não apenas as prefeituras e câmaras de vereadores, mas também entidades corporativas e empresariais. Afinal, sem a Uenf, o mais provável é que toda a região sob sua influência vá cair numa estagnação ainda maior do que a já existente. 

Mas não, até agora o que se vê praticado é um misto de indiferença e cumplicidade com a política de destruição sendo executada pelo (des) governo Pezão. E, de vez em quando, ainda aparece algum expert dizendo que a culpa é da Uenf que não faz isso ou aquilo para se aproximar da população.   O pior ainda é ter de ouvir a ladainha de que a Uenf tem que se abrir para o investimento privado, como se houvesse algum interesse real em investir em ciência e tecnologia dentro do capitalismo regional. Toda essa conversa só serve para que Pezão e seus (des) secretários continuem entregando bilhões em sua famigerada farra fiscal, e expressa o evidente descompromisso com qualquer processo de desenvolvimento regional que esteja ancorado numa indústria que está em um processo evidente de decadência (falo aqui da petrolífera, já que a do açúcar e do álcool tornou-se irrelevante faz tempo).

Assim, a sobrevivência das universidades estaduais, a Uenf inclusa, só será possível se as instituições e suas comunidades forem capazes de dialogar com quem efetivamente entende a sua importância. Falo aqui daquela parcela da população que veem nas universidades estaduais a única oportunidade real de um futuro melhor não apenas para si, mas para todos. Eu digo isso porque ao sair nas ruas e conversar com as pessoas, ouço sempre manifestações indignadas com o que está sendo feito contra a Uenf.   Procurar o diálogo com amplas camadas da população deverá ser uma tarefa central para garantir que as universidades estaduais não sejam destruídas. Como o ataque é intenso e incessante, qualquer minuto perdido neste diálogo poderá tornar o eclipse da Uenf um processo inevitável.

5 pensamentos sobre “Universidades estaduais sob ataque e os riscos disso para o futuro

  1. Marco Antônio disse:

    Professor Marcos já tinha comentado em outra ocasião sobre o papel do Brasil em uma “nova” divisão internacional do trabalho nos países, onde coube ao Brasil, mais uma vez, o papel de um dos celeiros do mundo. Evidências deste papel do Brasil nesta divisão seriam o desmantelamento da indústria (principalmente da área tecnológica) e da ciência. Para que um país agrícola (coincidência a campanha aberta da Globo pelo agronegócio?) precisaria de indústria e consequentemente de ciência e tecnologia? Pergunto ao senhor se o tratamento recebido pelas universidades públicas brasileiras não fazem parte desta política. Por este raciocínio, para que produzir conhecimento aqui? O agronegócio hoje não está nas mãos de multinacionais? E estas multinacionais produzem algo no Brasil? A riqueza gerada pelo agronegócio é aplicada por estas multinacionais aqui no Brasil? Tudo o que o senhor mostra nos post sobre Pezão, universidades públicas, ciência, conflitos agrários e de mineração no fundo não dizem respeito a este papel designado ao Brasil? Ou estou “viajando na maionese”?
    p.s. Desde quando o PT não aplicou política neoliberal no Brasil? Tirando os militantes fanáticos (que insistem em querer uma escritura em nome do Lula no crime de ocultação de patrimônio…), isso ainda é surpresa para alguém?

    • Marco Antônio, você nos presenteia com uma série de questões que explicitam bem o caráter da atual crise por que passa o Brasil e o resto do Capitalismo periférico, e acho que vai por aí mesmo. Quanto ao PT, me reservo à concentrar a crítica nos aspectos neoliberais das políticas que foram executadas em todos os níveis de governo em que o partido esteve envolvido. E o PT tem praticado sim uma forma de neoliberalismo velado. Talvez por isso é que o Lula ainda seja tão bem colocado nas pesquisas eleitorais. Não é?

      • Marco Antônio disse:

        Professor Marcos, o Lula não só está bem colocado nas pesquisas como é adorado por uma legião de fanáticos em razão do sucesso da política econômica de 2003 capitaneada por Henrique Meirelles, Alexandre Schwartsman, Ilan Goldfajn, Afonso Beviláqua, Joaquim Levy, Marcos Lisboa e Murilo Portugal (na Fazenda como no Banco Central). Interessante notar que fora Palocci não havia ninguém dos quadros do PT ocupando grandes cargos. Interessante notar também que em qualquer debate nas mídias sociais os “militantes talibans” do PT se recusam a responder como um governo de esquerda nomeou uma equipe econômica ortodoxa e conservadora, há casos em que o militante simplesmente nega isso!!! Li um artigo um tempo atrás narrando como Lula se socorria com seu grande amigo FHC para conseguir aprovação do governo Bush após o resultado das eleições de 2002. Os americanos estavam apreensivos com a eleição de Lula, que apelidaram na época de Aiatolula, mas aí veio a carta aos brasileiros em que Lula dava o recado para os “primos do norte” de que continuaria com a política de FHC (política esta que era duramente atacada nas propagandas eleitorais do PT), acalmando o Mercado e interesses estrangeiros. Isso e outros fatores externos (não vou citá-los para não estender demais o comentário) elevaram Lula ao panteão dos deuses, ainda que a “marolinha” tenha durado apenas cinco anos.
        É minha opinião…

      • As pessoas não precisam ser fanáticas para apoiar este ou aquele programa político. Como fui crítico dos governos do PT vejo que o que orientou e continua orientando a defesa das políticas aplicadas não teve nada de fanatismo, mas sim de um forte pragmatismo. Lamentavelmente foi esse pragmatismo que serviu para a direita aprofundar os ataques a direitos duramente conquistados pelos trabalhadores.

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