Quanto tempo mais para começar o banimento das commodities agrícolas brasileiras?

2391e-paraquat

Desmatamento explosivo e uso intensivo de agrotóxicos banidos aumentam pressão sobre parceiros comerciais para que parem de comprar commodities agrícolas brasileiras.

Um das razões pelas quais foi fácil anunciar no início de janeiro, exatos 11 dias após o início do governo, que a ciência brasileira passaria por tempos difíceis nas mãos do governo de Jair Bolsonaro é que seria inevitável a ocorrência de um choque entre a visão messiânica que guia boa parte dos ministros e as evidências que os cientistas possuem em variadas áreas do conhecimentos, especialmente no tocante às consequências socioambientais do desmatamento e do uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes sintéticos.

desmatamento

Desmatamento ilegal no sul do estado do Amazonas, em 2017

O que se vê agora é uma combinação entre um arremedo de guerra cultural contra as ciências ditas humanas, asfixia financeira generalizada, e um esforço concentrado para sumir com o conhecimento acumulado nas áreas que examinam o avanço do latifúndio agroexportador sobre os biomas nacionais, a começar pela Amazônia e pelo Cerrado. Tenho inclusive certeza de que a guerra cultural pode estar até começando pela tentativa de impor um sufocamento de filósofos e sociólogos, mas tenderá a rapidamente a alcançar aqueles segmentos da ciência que se dedicam a assuntos de natureza aparentemente mais técnica, como dos estudos dos agrotóxicos e do sensoriamento remoto (especialmente para aqueles que estudam a dinâmica da mudança na cobertura florestal na Amazônia).

Entretanto,  a recente publicação de uma carta da revista Science assinada por 602 pesquisadores que atuam na Europa exigindo que a União Europeia condicione a continuidade da compra de commodities brasileiras a um compromisso do governo Bolsonaro às boas práticas ambientais e ao respeito aos direitos dos povos indígenas mostra que os problemas para controlar e subordinar os cientistas brasileiros encontrará barreiras e oponentes fora de nossas fronteiras.

Em relação à carta/manifesto publicada na Science, notei a ausência da questão da contaminação das commodities brasileiras por resíduos de uma quantidade significativa do batalhão de agrotóxicos usados nas grandes monoculturas de exportação, tais como soja, milho e café.  A ausência dessa referência certamente se deu por uma escolha do que deveria ser o centro do argumento orientador desse documento histórico.  Entretanto, não me surpreenderei nenhum pouco se em um futuro não distante, tivermos uma carta específica sobre o fato que hoje os países da União Europeia estão importando produtos agrícolas brasileiras contendo resíduos de agrotóxicos muito acima do que é tolerado por aquele bloco econômico.

A verdade é que o Brasil não está apenas exportando “desmatamento” para a União Europeia, mas também “água invisível” e, pior, resíduos de agrotóxicos. Quando esta trinca for colocada junta não apenas por cientistas preocupados, mas principalmente pelos consumidores europeus, certamente haverá uma decisão da União Europeia para exigir que o Brasil volte a adotar as melhores práticas já existentes para equilibrar a atividade econômica com esforços de sustentabilidade socioambiental.

É que confrontados com o fato de que o Brasil está cada vez mais autorizando o uso de agrotóxicos banidos em seus próprios limites territoriais, a União Europeia não terá outra alternativa a não ser puxar o freio de mão na compra de commodities brasileiras. Mesmo porque hoje já existem fortes reclamações dos agricultores europeus sobre o descompasso entre as regras que precisam seguir para diminuir as taxas de resíduos de agrotóxicos em sua produção e a aceitação de commodities que levam para a Europa produtos já banidos para eles mesmos (um caso é o do inseticida organofosforado Acefato).

Image result for commodities brasileiras agrotóxicos

Café produzido no Brasil utiliza 121 agrotóxicos, 30 deles banidos pela União Europeia.

E que ninguém se iluda que a exigência de bons modos não resultará de nenhuma forma de grande consciência ambiental, pois daqui e de outros países da periferia do capitalismo é que saem as gordas margens de lucro que sustentam praticas menos danosas ao ambiente nos países desenvolvidos. A pressão virá porque estaremos exportando problemas acima do que é tolerável pela União Europeia.  

Não custa lembrar que até a Rússia já alertou o governo Bolsonaro sobre o fato de que vai parar de comprar soja brasileira se não for diminuída a contaminação pelo herbicida Glifosato. E é como eu tenho dito, se a Rússia já sinalizou isso, outros parceiros comerciais irão seguir igual rumo, e não apenas com a soja.

Image result for russia soja pedlowski

Dentro desse quadro é que muito provavelmente veremos consequências concretas não apenas da carta dos 602 pesquisadores europeus, mas também do alerta da Rússia que parece ter caído em ouvidos moucos no governo Bolsonaro.  E quando o banimento vier, que não se tente sequer culpar a comunidade científica brasileira.  É que não se deve culpar quem alerta para as consequências de ações que hoje não são mais toleráveis, mesmo em plena vigência e hegemonia do sistema capitalista.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s