Conflito na Ucrânia coloca agronegócio brasileiro em uma encruzilhada espinhosa

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A ação militar da Rússia está causando uma inquietação incomum nas lideranças do agronegócio brasileiro, especialmente naqueles setores que pensam estrategicamente ação do latifúndio agro-exportador. Ainda que as primeiras sinalizações sejam em torno do encarecimento do preço de fertilizantes, essas lideranças devem saber que existem coisas ainda mais graves fermentando enquanto as bombas caem em Kiev. 

Uma questão essencial tem a ver mais do que a compra de insumos, mas fundamentalmente do destino da produção. É que o alinhamento do Brasil (ainda que extra-oficial do presidente Jair Bolsonaro) à Rússia certamente terá consequências no mercado europeu, na medida em que neste momento a opção da União Europeia e dos EUA é usar uma mão pesada contra aqueles que forem vistos como lenientes com as ações do governo de Vladimir Putin.

Há que se lembrar que as commodities agrícolas brasileiras já vinham enfrentando problemas por causa do avanço do desmatamento na Amazônia, com uma série de grandes empresas optando por retirar produtos brasileiros de suas prateleiras por causa da pressão de uma clientela cada vez mais alarmada com a devastação promovida pelo agronegócio brasileira. Entretanto, agora o buraco, digamos assim, é mais embaixo porque as razões postas tem a ver mais com os esforços para conter o giro estratégico que os russos estão forçando nas relações comerciais e financeiras em escala global.

Por isso, todo o discurso que sendo alardeado de preocupação com o potencial aumento dos preços dos alimentos no Brasil por causa da falta dos fertilizantes fornecidos pela Rússia e pela Bielo Rússia não passam de uma cortina de fumaça, na medida em que a produção de alimentos no Brasil depende diretamente da agricultura familiar onde o uso de fertilizantes sintéticos ocorre em menor escala do que nos grandes latifúndios cuja produção é voltada primariamente para a exportação.

O erro estratégico da desnacionalização e privatização do setor de produção de fertilizantes

A ministra Tereza Cristina reconheceu ontem (2/3) um dos erros estratégicos mais óbvios que o governo Bolsonaro, do qual ela é uma das líderes ideológicas, cometeu desde que tomou o poder em janeiro de 2019. É que desde 2016, a Petrobras (já soube os desígnios de Michel Temer e Jair Bolsonaro) fechou três fábricas de fertilizantes, sendo caso da  Fertilizantes Nitrogenados do Paraná (Fafen-PR) que foi fechada em fevereiro de 2020.

Com todos esses fechamentos, o Brasil precisa hoje importar 80% dos fertilizantes que utiliza na sua agricultura, o que com a atual situação na Ucrânia se mostrou um erro gravíssimo, na medida em que a Rússia não deverá voltar a exportar até que haja uma correção do sistema de pagamentos após a sua expulsão do chamado sistema “Swift“.

Desta forma, como não há uma fonte interna de produção, o que deverá ser um processo de escassez que, consequentemente, aumentará os custos de produção, contribuindo assim para uma perda de competitividade das commodities agrícolas brasileiras em um processo que poderá ser agravado pela diminuição da demanda.

A encruzilhada adiante é de natureza essencialmente estratégica

Um problema especialmente agudo que afeta o latifúndio agro-exportador brasileira tem pouco a ver com fertilizantes. Na verdade, como o que está ocorrendo na Ucrânia neste momento é apenas a ponta do iceberg de um movimento de reorganização do funcionamento da economia global, o agronegócio brasileiro (como o resto do mundo) vai ter que aguardar o final do conflito armado para ver qual será o rumo geopolítico das grandes forças envolvidas no processo.

É que tudo indica que estaremos entrando em um novo status quo geopolítico, com a ordem de Bretton Woods sendo enterrada para que se veja o nascimento de outra que será marcada pela justaposição ocidente-oriente. Como o Brasil, por sua natureza de economia dependente, tem os pés (e mãos) amarrados nesses dois polos, qualquer opção de alinhamento mais específico trará implicações políticas e econômicas.

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