Caminho sem volta: após 2°C de aquecimento global, perda de biodiversidade da Amazônia e do Pantanal pode ser irreversível

deforestation amazon

A ação climática está ficando para trás na escala de tempo necessária para atingir as metas do Acordo de Paris de manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C ou pelo menos impedir que ultrapasse 2°C neste século. Muitos cenários apontam agora para uma ultrapassagem dessas temperaturas por várias décadas, enquanto formuladores de políticas públicas e privadas defendem o uso de tecnologias ainda não validadas de remoção de dióxido de carbono (CDR) para trazer as temperaturas para baixo no futuro.

Uma pesquisa divulgada hoje (27) mostra como essa extrapolação de temperatura pode causar danos importantes e potencialmente irreversíveis à biodiversidade e aos ecossistemas em todo o mundo. Ao modelar o comportamento de mais de 30 mil espécies em diferentes ecossistemas, a análise descobriu que para quase 25% dos locais estudados, as chances de volta ao “normal” são incertas ou inexistentes, e isto inclui a Amazônia e o Pantanal. Para 8% dos locais observados, é correto dizer que nunca retornariam a esses níveis, diz a pesquisa.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo (UCT) e do University College London (UCL) e publicado no periódico Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences. Nele, os cientistas exploram um cenário de excesso de emissões de CO2 que continua crescendo até 2040, depois inverte seu curso e cai para menos de 2°C após 2070 por meio de cortes profundos de carbono e à implantação maciça do CDR.

Segundo o estudo, para a maioria das regiões, os efeitos da exposição a temperaturas acima de 2°C chegará repentinamente, com muitas espécies sendo simultaneamente empurradas para além de seus limites de nicho térmico. Já o retorno dessas espécies às condições confortáveis será gradual e ficará atrás do declínio da temperatura global hipoteticamente alcançado no futuro.

As regiões tropicais serão mais afetadas por estes riscos, com mais de 90% das espécies no Indo-Pacífico, Oceano Índico Central, Norte da África Subsaariana e Norte da Austrália sendo levadas para fora de seus nichos térmicos. E na Amazônia, uma das regiões mais ricas em espécies do mundo, mais da metade delas estará exposta a condições climáticas potencialmente perigosas. O mesmo cenário é apontado para o Pantanal, o bioma de planície alagada mais biodiverso do mundo.

“Na Amazônia, isto poderia significar a substituição de florestas por pastagens e, como consequência, a perda de um importante sumidouro global de carbono, o que teria efeitos colaterais em múltiplos sistemas ecológicos e climáticos, assim como nossa capacidade de reduzir o aquecimento global”, explica Andreas Meyer, um dos autores da pesquisa e membro da Iniciativa Africana para o Clima e Desenvolvimento (ACDI) da UCT.

“Um estudo como este, que modela explicitamente os riscos para a biodiversidade do excesso de temperatura seguido de um retorno para baixo de 2°C, era há muito tempo uma peça faltante na pesquisa sobre a mudança climática”, declarou em nota a equipe que conduziu a análise.

Atualmente, a biodiversidade do planeta já está afetada pelas mudanças climáticas em curso. O aquecimento global — que hoje é de 1,2°C acima dos níveis pré-industriais — está causando mortandades precoces em espécies florestais e em massa nos recifes de coral, além de alterar a distribuição das espécies e eventos reprodutivos.

Tempo importa

O estudo ressalta a importância de uma perspectiva temporal nas discussões sobre cenários de ultrapassagem da temperatura de 2°C. Muitas projeções sobre o aquecimento global descartam as consequências potencialmente irreversíveis desta extrapolação desde que ao final a temperatura volte a estar abaixo deste limite perigosamente alto. Isso tem contribuído para subestimar a necessidade, apontada pelo IPCC, de reduções rápidas e profundas nas emissões e para promover tecnologias de remoção de carbono que supostamente estariam maduras no futuro.

Além disso, os autores observam que as CDR também podem ter impactos negativos sobre os ecossistemas: por exemplo, o plantio florestal em larga escala ou a produção de biocombustíveis requerem muita terra e água, gerando impactos socioambientais negativos e efeitos secundários sobre o sistema climático.

“É importante perceber que não existe uma solução ‘bala de prata’ para mitigar os impactos da mudança climática. Muitas tecnologias de remoção de dióxido de carbono e soluções baseadas na natureza, como o florestamento, vêm com potenciais impactos negativos”, afirma Joanne Bentley, uma das autoras do trabalho e membro da ACDI.

“Temos que reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa. Nosso estudo mostra que, se ultrapassarmos a meta de 2°C de aquecimento global, poderemos pagar caro em termos de perda de biodiversidade, comprometendo a prestação dos serviços ecossistêmicos com os quais todos nós contamos para nossa sobrevivência. Evitar um excesso de temperatura deve ser uma prioridade, seguido pela limitação da duração e da magnitude de qualquer excesso”.

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