O outro jogo da Noruega na Amazônia

Foto:  Pedrosa Neto

Por Ismael MachaDo*

A eliminação do Brasil diante da Noruega ficará registrada como mais um capítulo das surpresas (dessa feita não tão surpresa assim) que só o futebol é capaz de produzir. Noventa minutos, um placar a ser ruminado, discutido, debatido profundamente, uma despedida precoce dos gramados estadunidenses. Mas, para quem vive na Amazônia, especialmente em Barcarena, a Noruega representa uma peleja muito mais antiga e muito mais difícil de reverter o placar adverso.

No futebol, adversários se enfrentam sob as mesmas regras. Na economia global, as disputas obedecem a outra lógica. E essa lógica é perversa. Muitas vezes silenciosa, em outras, estridente.

Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a seleção em campo, poucos lembravam (ou sabem) que o Estado norueguês é o principal acionista da empresa Norsk Hydro, por meio do governo da Noruega. Não, não estou aqui escrevendo bobagens do tipo ‘o futebol aliena e coisas mais importantes estão acontecendo’. Não é nada disso. apenas estou tentando contar outra história também relevante. Sigamos. A companhia controla, em Barcarena, um dos maiores complexos industriais de produção de alumina e alumínio do mundo, formado principalmente pela refinaria Alunorte e pela fábrica Albras. A refinaria tem capacidade para produzir mais de 6 milhões de toneladas de alumina por ano, matéria-prima essencial para a fabricação do alumínio, abastecendo cadeias produtivas espalhadas por diversos continentes.

O alumínio que sai de Barcarena está presente em automóveis, aviões, embalagens, equipamentos eletrônicos, painéis solares e turbinas eólicas. Em outras palavras, uma parte da chamada economia verde (e não ‘verde’) mundial passa inevitavelmente pela exploração mineral da Amazônia.

O paradoxo é evidente. Internacionalmente, a Noruega construiu a imagem de uma potência ambiental. Tornou-se o maior financiador do Fundo Amazônia, destinando cerca de R$ 3,4 bilhões ao mecanismo desde sua criação, como parte de sua política de combate ao desmatamento e às mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, por intermédio de uma empresa da qual é o principal acionista, mantém um dos maiores empreendimentos minerometalúrgicos da região amazônica.

Não há ilegalidade nessa condição. O que existe é uma contradição política e ética que merece ser debatida. O mesmo Estado que financia a conservação da floresta também participa economicamente de uma atividade industrial que produz impactos ambientais significativos sobre essa mesma Amazônia.

Barcarena tornou-se um dos símbolos dessa tensão. Desde 1977, quando as primeiras famílias começaram a ser ‘visitadas’ em suas casas, sendo alertadas de que viriam futuros empreendimentos, passando pela década de 1980, quando o complexo industrial começou a ser implantado, o município experimentou crescimento econômico acelerado, mas também sucessivos conflitos fundiários, deslocamentos de comunidades tradicionais, pressão sobre rios, igarapés e áreas de uso coletivo.

A instalação de refinarias de alumina, terminais portuários e grandes obras de infraestrutura modificou profundamente o território. Ao mesmo tempo em que a região passou a ocupar posição estratégica na exportação de minérios e outras commodities, comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas e agricultores familiares passaram a conviver com mudanças drásticas em seu modo de vida.

A expansão industrial trouxe consigo processos de desapropriação, redução de áreas tradicionalmente ocupadas, pressão sobre os recursos naturais e alterações na dinâmica dos rios, fundamentais para a pesca, o transporte e a subsistência das populações locais. Ao longo dos anos, moradores denunciaram dificuldades crescentes para manter atividades tradicionais, além do aumento dos conflitos fundiários e da insegurança em relação aos seus territórios.

Barcarena também se tornou conhecida nacionalmente por sucessivos acidentes ambientais. Vazamentos de resíduos industriais, denúncias de contaminação de rios e igarapés e questionamentos sobre a segurança das operações reforçaram a percepção de que os custos ambientais do desenvolvimento recaíam, sobretudo, sobre as comunidades mais vulneráveis. Diversas investigações conduzidas por órgãos públicos, universidades e organizações da sociedade civil apontaram a necessidade de fortalecer os mecanismos de fiscalização e de ampliar a participação das populações atingidas nos processos de licenciamento.

O episódio mais emblemático ocorreu em 2018. Após fortes chuvas, moradores denunciaram o transbordamento de bacias e o lançamento irregular de efluentes. Estudos produzidos por órgãos públicos identificaram alterações na qualidade da água em diferentes pontos do município. A empresa contestou parte das conclusões, afirmou que seus sistemas eram seguros e celebrou posteriormente acordos com autoridades ambientais e o Ministério Público para ampliar investimentos, monitoramento e programas de compensação. Ainda assim, o episódio permanece como uma referência do conflito entre desenvolvimento industrial e direitos socioambientais.

Os números ajudam a compreender a dimensão dessa relação. A mineração responde por parcela expressiva das exportações do Pará, e Barcarena figura entre os maiores municípios exportadores do Brasil. Bilhões de dólares deixam anualmente seus portos na forma de alumina, alumínio e outros produtos minerais. Um levantamento recente mostra que pelo menos 36% do minério exportado pelo Brasil sai do Pará. Entretanto, comunidades quilombolas, ribeirinhas e agricultores familiares continuam reivindicando acesso à água de qualidade, segurança ambiental, regularização de seus territórios e participação efetiva nas decisões que afetam suas vidas.

Já há algum tempo, como repórter, acompanho essas histórias. Desde 2009, pelo menos, quando visitei a comunidade de Burajuba a primeira vez até esses dias atuais, quando estou envolvido em uma edição especial para uma Organização Não Governamental sobre a situação dessas comunidades e sua luta pelo território.

Essa é talvez a maior contradição da relação entre Noruega e Amazônia. O país europeu tornou-se uma referência internacional na agenda climática, financiando projetos de conservação florestal e defendendo metas globais de redução de emissões. Porém, uma parte importante da riqueza administrada por seu Estado também depende da extração intensiva de recursos naturais em regiões ambientalmente sensíveis como a Amazônia.

Não se trata de demonizar a Noruega nem de ignorar os benefícios econômicos gerados pela atividade mineral. A mineração produz empregos, arrecada impostos, movimenta cadeias produtivas e possui papel estratégico para a transição energética mundial. Mas justamente por isso precisa ser permanentemente confrontada com perguntas que continuam sem resposta satisfatória. Quem suporta os custos ambientais dessa riqueza? Quem assume os riscos? Quem decide o destino dos territórios?

Por isso, talvez a maior derrota para a Noruega não tenha acontecido com os gols decisivos de Haaland. Ela vem sendo disputada há décadas, longe dos estádios, às margens dos rios de Barcarena. É uma partida cujo placar não se mede por quantidade de bolas na rede, mas pela qualidade da água, pela preservação das florestas, e sobrevivência dos territórios tradicionais, além da capacidade de transformar o desenvolvimento econômico em justiça ambiental.

No futebol, sempre haverá outra Copa, outras emoções, uma nova chance. Para a Amazônia, porém, algumas derrotas podem deixar marcas que atravessam gerações.

*Ismael Machado é jornalista


Fonte:  Medium

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