A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) está conduzindo os festejos pelos 33 anos do início de suas atividades com a pompa celebratória própria de sua direção institucional. Mas outro aniversário deverá ocorrer de forma mais contida na próxima terça-feira (18/8). Falo aqui do aniversário da constituição oficial da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf), que, embora criada informalmente em 1995, somente foi legalizada em 1999. Assim, a Aduenf está, digamos, nas ruas, nos corações e nas mentes há praticamente 27 anos.
Ainda que haja omissões e esquecimentos, a Aduenf tem estado presente em momentos cruciais de grande parte da história da universidade. Foi a luta da Aduenf que garantiu a criação formal da Uenf, em 2001, após um duro processo de mobilização que unificou a comunidade universitária e obteve do então governador Anthony Garotinho o cumprimento de uma promessa de campanha que ele havia esquecido.
Também foi a partir da luta da Aduenf que a governadora Rosinha Garotinho enviou à Alerj o primeiro — e ainda vigente — Plano de Cargos e Vencimentos da Uenf. Esse plano era a demanda central de uma greve que durou vários meses em 2005 e que, apesar de ter sido encerrada sem o atendimento imediato da reivindicação, conquistou a implantação do PCV no ano seguinte.
A Aduenf também foi central na resistência que ocorreu em 2017, igualmente materializada em uma greve de mais de quatro meses, quando o estado do Rio de Janeiro entrou objetivamente em falência, deixando os professores da universidade sem o pagamento regular de seus salários. Aquele foi um momento particularmente difícil, que testou a capacidade do sindicato dos professores da Uenf de manter a categoria organizada e pronta para resistir ao projeto de destruição encabeçado pelo então governador Luiz Fernando Pezão.
A Aduenf também tem estado, no período mais recente, na linha de frente da luta pela atualização do PCV que a mobilização organizada arrancou há mais de duas décadas. Nesse embate, a Aduenf tem mais uma vez utilizado as ferramentas de um sindicalismo independente e combativo para reivindicar o direito não apenas dos professores, mas de todos os servidores, de terem salários dignos e carreiras capazes de responder aos novos desafios colocados diariamente pela construção e manutenção de uma universidade pública.
Olhando em retrospectiva, é seguro dizer que, se não fosse pela luta da Aduenf, a Uenf talvez sequer existisse legalmente nos moldes em que a conhecemos, nem haveria carreiras formalmente constituídas. Mais importante do que isso: sem a Aduenf, é provável que não houvesse sequer uma universidade que se pudesse chamar plenamente de pública, quanto mais gratuita. E a Aduenf tem sido capaz de cumprir esse papel justamente por praticar um sindicalismo autônomo em relação a governos, partidos e reitorias. Talvez seja por isso que a Aduenf não seja convidada para os banquetes oficiais, onde, além de desfrutar do regabofe, espera-se dos convidados o cumprimento do ritual de tecer loas aos poderosos de plantão. Mas essa ausência nos regabofes institucionais pode ser vista como uma espécie de selo de legitimidade: sinal de uma entidade que não existe para agradar aos ocupantes circunstanciais do poder, mas para representar os interesses de sua categoria e continuar travando as boas lutas que cercam a existência da Uenf.
Por tudo isso, como alguém que testemunhou não apenas o nascimento da Aduenf, mas que também participou de algumas de suas principais lutas, desejo-lhe um feliz aniversário. Mais do que celebrar os seus 27 anos de existência formal, porém, é preciso reafirmar aquilo que justifica a sua existência: a Uenf precisa de um sindicato livre, autônomo e combativo. Um sindicato que não confunda diálogo com subordinação, participação institucional com silêncio ou cordialidade com renúncia à crítica. Os direitos dos professores da Uenf nunca foram dádivas concedidas espontaneamente por governos ou administrações; foram conquistados por meio de organização, mobilização e luta coletiva. E, diante dos desafios que continuam postos à universidade pública e às carreiras de seus servidores, preservar a independência da Aduenf não é apenas honrar sua história: é garantir que os professores da Uenf continuem tendo uma voz coletiva capaz de enfrentar governos, reitorias ou quaisquer outros poderes sempre que seus direitos e a própria universidade pública estiverem sob ameaça.
Vida longa à Aduenf — e que ela continue livre para lutar!
