Jânio de Freitas vaticina que sem o impeachment de Bolsonaro, o Brasil pode estar se transformando em “um país no finalzinho”

A conduta na balbúrdia da vacina basta para justificar impeachment de Bolsonaro Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto

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Por Janio de Freitas, jornalista

É impossível imaginar o que falta ainda para a única providência que salve vidas —quantas, senão muitos milhares?— da sanha mortífera de Jair Bolsonaro. Mas não é preciso imaginar a indecência da combinação de “elites” e políticos, para ver o que e quem concede liberdade homicida em troca de ganhos.

Pessoas com autoridade formal para o conceito que têm emitido, além de suas respeitabilidades, como o jurista Oscar Vilhena Vieira, o ex-ministro da Justiça e criminalista José Carlos Dias e o médico Celso Ferreira Ramos Filho, presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, entre outros altos quilates, têm qualificado com clareza e destemor a anti-ação de Bolsonaro e seus militares na mortalidade pandêmica.  Crime, criminoso (os), organização familiar criminosa, homicidas, desumanidade —são algumas das palavras e expressões aplicadas ao que é feito contra a vida. Contra o próprio país, portanto.

A conduta da Presidência e de seus auxiliares na Saúde, na balbúrdia da vacina, basta para justificar o processo de interdição ou de impeachment, sem precisar dos anteriores crimes de responsabilidade e outros cometidos por Bolsonaro e pelo relapso general Eduardo Pazuello. Nem se sabe mais o número de requerimentos para processo de impeachment apresentados à Câmara. Sobre eles, Rodrigo Maia, presidente da casa. Lançou uma sentença sucinta: “Não há agora exame de impeachment nem vai haver depois”.

Nítido abuso de poder, nessa recusa a priori. É dever do presidente da Câmara o exame de tais requerimentos, daí resultando o envio justificado para arquivamento ou para discussão em comissões técnicas. Rodrigo Maia jamais explicou sua atitude. Daí se deduz que não lhe convém fazê-lo, com duas hipóteses preliminares: repele a possível entrega da Presidência ao vice Mourão ou considera a iniciativa inconveniente a eventual candidatura sua a presidente em 2022.

Seja como for, Rodrigo Maia macula sua condução da Câmara, bastante digna em outros aspectos, e se associa à continuidade do desmando igualado ao crime de índole medieval. Os constituintes construíram um percurso difícil e longo para o processo de impeachment, e que assim desestimulasse sua frequência. Mas deixaram com um só político o poder de consentir ou não na abertura do processo. Fácil via para o abuso do poder. E sem alternativa para o restante do país, mesmo na dupla calamidade de uma pandemia letal e um governo que a propaga.

Há denúncias protocolares da situação por entidades, não muitas, e por um número também baixo de pessoas tocadas, de algum modo, pelo senso de responsabilidade, a inquietação, a dor. Movimento para que os genocidas vocacionais sejam enfrentados, nenhum. As camadas sociais que continuam tranquilas com seus rendimentos são, entende-se, as que podem manipular os ânimos públicos. São também as que têm mais noção do que se passa, mas sem que isso atenue o seu egoísmo e desprezo pelas camadas abaixo. Assim, não há reação ao duplo ataque. Diante de todos os desastres que o corroem, o Brasil parece morto.

Mas nem com esse aspecto, ou essa realidade, precisaria descer tão baixo na imoralidade. Sobrassem alguns resquícios de decência nas classes que, a rigor, são o poder no Brasil, a descoberta de que a Abin, a abjeta Agência Nacional de Informação, foi mobilizada para ajudar Flávio Bolsonaro no processo criminal da rachadinha” criaria alguma indignação. E levaria ao pronto afastamento de todos os beneficiários e comprometidos com esse crime contra a Constituição, as instituições, os trâmites da Justiça e a população em geral.

O general Augusto Heleno Pereira negou a revelação da revista Época. É um velho mentiroso. Isso está provado desde os anos 90, quando me escreveu uma carta negando sua suspeita ligação com Nicolau dos Santos Neto, o juiz da alta corrupção no TRT paulista. Tive provas documentais para desmenti-lo. Estava então no Planalto de Fernando Henrique. Com Bolsonaro, além de desviar a Abin em comum com Alexandre Ramagem, que a dirige, Augusto Heleno já esteve em reuniões com os advogados de Flávio, que é agora quem o desmente.

Ramagem, por sua vez, é o delegado que Bolsonaro quis na direção da Polícia Federal, causando a saída de Sérgio Moro do governo. Fica demonstrado, portanto, pelas figuras de Augusto Heleno e Ramagem no desvio de finalidade da Abin, que Bolsonaro tentou controlar a PF para usá-la na defesa de Flávio, de si mesmo, de Carlos, de Michelle, de Fabrício Queiroz e sua mulher Márcia e demais componentes do grupo.

Se nem essa corrupção institucional levar à retirada de toda a corja, será forçoso reconhecer um finalzinho. Não dá pandemia, como disse Bolsonaro. Do Brasil, mesmo.

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Este texto foi originalmente publicado pelo jornal “Folha de São Paulo [Aqui!].

Vacina contra o coronavírus fabricada na China está no centro do confronto político no Brasil

 Choque em curso entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador de São Paulo sobre a vacina Sinovac ameaça implantação de imunização.  Desentendimentos sobre quais vacinas fornecer à população brasileira vêm fermentando desde outubro

mascaraMulher usando máscara protetora no Brasil, o segundo país mais atingido pela pandemia de coronavírus depois dos Estados Unidos. Foto: Reuters

Por Eduardo Baptista para o South China Morning Post

O Brasil se tornou um campo de batalha à medida que facções políticas disputam sobre qual vacina contra a Covid-19  vai  usada para imunizar 212 milhões de cidadãos – uma decisão que terá implicações para toda a região da América Latina.

O presidente do Brasil Jair Bolsonaro emitiu um decreto em agosto para reservar US $ 356 milhões para comprar e eventualmente produzir 100 milhões de doses da vacina desenvolvida em conjunto pela Universidade de Oxford e a empresa farmacêutica AstraZeneca.

Enquanto isso, João Doria, governador do estado mais rico do Brasil, tem pressionado ativamente  pelo uso da CoronaVac, uma vacina desenvolvida pela Sinovac Biotech, sediada em Pequim, no que os especialistas dizem ser um movimento inicial para a candidatura presidencial de 2022.

Um confronto está se preparando desde outubro, quando Bolsonaro vetou um acordo entre o ministério da saúde e o governo paulista de Doria para a compra de 46 milhões de doses do CoronaVac. Ele passou a igualar isso a “morte e invalidez” e disse que não o incluiria no programa nacional de imunização do país.

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As primeiras doses da vacina CoronaVac Covid-19 da China chegam ao Brasil

Conhecido como o “Trump dos Trópicos”, Bolsonaro também se recusou a ser vacina contra a COVID-19 e minimizou a gravidade da epidemia.

Ao mesmo tempo, o Instituto Butantan, com sede em São Paulo, quase concluiu os testes de Fase 3 da vacina chinesa e cooperou com Doria para construir a infraestrutura necessária para a produção em massa.

A crise da Covid-19 no Brasil foi de mal a pior. O país está enfrentando o segundo surto mais mortal depois dos Estados Unidos, com mais de 6,7 milhões de casos e 179.000 mortes. Vários governadores estaduais, incluindo Doria, criticaram o plano federal de imunização por não garantir um suprimento diversificado de vacinas.

A pressão sobre Bolsonaro também está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus próprios suprimentos de vacinas. Dimas Covas, chefe do Instituto Butantan, disse em agosto que estava em negociações com Argentina, Colômbia e a Organização Pan-Americana da Saúde para fornecer o CoronaVac.

Na quinta-feira, Covas disse que o número de países interessados ​​cresceu e inclui Peru, Uruguai, Paraguai e Honduras. Falando na mesma conferência, Doria disse que 11 estados brasileiros entraram em contato com o Butantan em busca do CoronaVac.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março.  A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas.  Foto: ReutersO presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, ajusta sua máscara facial durante uma entrevista coletiva em março. A pressão sobre Bolsonaro está aumentando à medida que outros países da região tentam aumentar seus suprimentos de vacinas. Foto: Reuters

Doria disse na segunda-feira que a implantação da vacina em todo o estado começaria em 25 de janeiro, com 18 milhões de doses a serem distribuídas no total. Os primeiros a receber a vacina serão grupos vulneráveis, como profissionais de saúde e povos indígenas, seguidos por qualquer pessoa com mais de 60 anos.

Nada disso será possível, porém, sem a aprovação do órgão regulador de saúde do Brasil, a Anvisa. Poucas horas após o anúncio de Doria, a Anvisa expressou surpresa e preocupação com o fato de a data escolhida invalidar o andamento da avaliação da vacina.

A Anvisa também observou que ainda havia dois bloqueios de estradas antes que a vacina pudesse ser aprovada para uso emergencial. Uma revisão da fábrica na China onde a vacina será feita ainda estava em andamento e os resultados finais dos testes de Fase 3 do Instituto Butantan ainda não haviam sido apresentados.

O ministro da Saúde e aliado do Bolsonaro, Eduardo Pazuello, disse nesta terça-feira – durante reunião com governadores de estados brasileiros – que a Anvisa precisava de cerca de 60 dias para aprovar uma vacina e que a primeira da fila era a da AstraZeneca. Isso tornaria a data anunciada de Doria inatingível.

Doria criticou as declarações de Pazuello, dizendo que o governo federal tinha uma oposição ideológica e política ao CoronaVac. Em resposta, Pazuello garantiu aos governadores que o governo federal compraria qualquer vacina aprovada pela Anvisa a preços razoáveis.

Ativistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia.  Foto: AFPAtivistas da organização não governamental “Rio de Paz” erguem barracos simulados, que representam a vida de famílias de favelas de baixa renda no Brasil, para protestar contra a decisão do governo Bolsonaro de suspender a ajuda às pessoas mais afetadas pela pandemia. Foto: AFP

Em entrevista à CNN Brasil no dia seguinte, Pazuello disse que se o governo federal fechar um acordo com a farmacêutica norte-americana Pfizer, o uso emergencial de sua vacina pode começar já em dezembro.

Milhares de pessoas receberam a vacina CoronaVac na China, onde a vacina tem autorização de uso emergencial.

Doria disse que os dados finais dos ensaios clínicos da Fase 3 serão apresentados na terça-feira, e que a Anvisa havia prometido uma decisão em 30 dias.

Ao longo da disputa entre Doria e Bolsonaro, a Anvisa reafirmou seu compromisso de avaliar vacinas com base em critérios científicos e não políticos.

Doria já questionou várias vezes a independência da Anvisa, afirmando nesta quarta-feira que a agência não deve ser refém de interesses do governo federal, da presidência ou de uma ideologia.

Bolsonaro, um ex-capitão do Exército, indicou o tenente-coronel aposentado Jorge Kormann para o conselho da Anvisa no mês passado. Se a indicação for aprovada no Senado, três dos cinco diretores da Anvisa serão aliados do Bolsonaro, aumentando as chances de boicote da CoronaVac.

Kormann, atualmente trabalhando no ministério da saúde de Pazuello, não tem experiência anterior em medicamentos ou vacinas, mas deve liderar a unidade da agência responsável pela aprovação de vacinas. Sua indicação foi contestada pelo sindicato dos trabalhadores da Anvisa.

O Brasil, que tem a quinta maior população do mundo, precisa de mais de 400 milhões de doses para que o governo cumpra sua promessa de vacinar toda a população até o final do ano que vem

Pazuello disse na terça-feira que a AstraZeneca forneceria 260,4 milhões de doses – 100,4 milhões no primeiro semestre de 2021 e 160 milhões no segundo semestre. Setenta milhões de doses viriam da Pfizer e de um consórcio liderado pela Organização Mundial da Saúde, o Consórcio Covax , que forneceria 42,5 milhões de doses.

Na quinta-feira (10/12), o segundo funcionário mais graduado do Ministério da Saúde, Elcio Franco, disse que a Pfizer e a CoronaVac estavam “no mesmo nível” e aguardando a aprovação da Anvisa. No entanto, o ministério ainda não disse quantas doses de CoronaVac serão lançadas.

Este artigo foi inicialmente escrito em inglês e publicado por South China Morning Post [Aqui].

Vacinação já!

Basta do descaso homicida de Bolsonaro! Quase nada mais importa que imunização

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Frasco rotulado como vacina contra Covid-19 em foto de ilustração 10/04/2020 REUTERS/Dado Ruvic/Illustration

Editorial do jornal Folha de São Paulo

Passou de todos os limites a estupidez assassina do presidente Jair Bolsonaro diante da pandemia de coronavírus. É hora de deixar de lado a irresponsabilidade delinquente, de ao menos fingir capacidade e maturidade para liderar a nação de 212 milhões de habitantes num momento dramático da sua trajetória coletiva. Chega de molecagens com a vacina!

Mais de 180 mil pessoas morreram de Covid-19 no Brasil pela contagem dos estados, subestimada. A epidemia voltou a sair do controle, a pressionar os serviços de saúde e a enlutar cada vez mais famílias. Trabalhadores e consumidores doentes ou temerosos de contrair o mal com razão se recolhem, o que deprime a atividade econômica. Cego por sua ambição política e com olhos apenas em 2022, Bolsonaro não percebe que o ciclo vicioso da economia prejudica inclusive seus próprios planos eleitorais.

O presidente da República, sabotador de primeira hora das medidas sanitárias exigidas e principal responsável por esse conjunto de desgraças, foi além. Sua cruzada irresponsável contra o governador João Doria esbulhou a confiança dos brasileiros na vacina. Nunca tão poucos se dispuseram a tomar o imunizante, segundo o Datafolha.

Com a ajuda do fantoche apalermado posto no Ministério da Saúde, Bolsonaro produziu curto-circuito numa máquina acostumada a planejar e executar algumas das maiores campanhas de vacinação do planeta. Como se fosse pouco, abarrotou a diretoria da Anvisa com serviçais do obscurantismo e destroçou a credibilidade do órgão técnico.

Abandonada pelo governo federal, a população brasileira assiste aflita ao início da imunização em nações cujos líderes se comportam à altura do desafio. Não faltarão meios jurídicos e políticos de obrigar Bolsonaro e seu círculo de patifes a adquirir, produzir e distribuir a máxima quantidade de vacinas eficazes no menor lapso temporal.

O caminho da coerção, no entanto, é mais acidentado e longo que o da cooperação entre as autoridades federais, estaduais e municipais. Perder tempo, neste caso, é desperdiçar vidas brasileiras, o bem mais precioso da comunidade nacional.

Basta de descaso homicida! Quase nada mais importa do que vacinas já —e para todos os cidadãos.

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Este texto foi originalmente publicado na forma de um editorial pelo jornal Folha de São Paulo [Aqui!].

Desconfiança com governo Bolsonaro trava acordo com Mercosul, diz embaixador da União Europeia

Falta de confiança no Brasil emperra acordo entre os blocos econômicos, afirma o diplomata o espanhol Ignacio Ybáñez Rubio

ursula-750x430A presidente da Comissão Europeia, a alemã Ursula von der Leyen, em discurso no Parlamento Europeu, em Bruxelas

Costurado há mais de 20 anos, o acordo entre a União Europeia e o Mercosul está emperrado e ameaçado por causa da política ambiental do governo Bolsonaro. É o que aponta o embaixador da União Europeia no Brasil, o espanhol Ignacio Ybáñez Rubio, em entrevista exclusiva ao Congresso em Foco. Para que as negociações avancem, adverte o diplomata, será preciso que a Europa retome a confiança no Brasil, o que exigirá do país a redução dos indicadores de desmatamento ilegal e a reformulação de sua política socioambiental, abrangendo também a proteção dos povos indígenas. “A desconfiança existe”, frisa.

Segundo Ybáñez, o acordo só será ratificado se houver alinhamento entre valores e aspirações entre os países-membros dos dois blocos.

“Já levamos certo tempo comunicando ao governo brasileiro a nossa preocupação a respeito. De alguma forma, o comissário Dombrovskis já anunciou nos parlamento [europeu] que, até que não restabeleçamos a confiança deste ponto de vista com o governo brasileiro, vai ser muito difícil de seguir adiante, primeiro com a assinatura e depois a ratificação”, afirmou o embaixador, que está desde o ano passado no Brasil com a missão de acertar com o governo brasileiro as condições para o fechamento do acordo. Valdis Dombrovskis, da Letônia, é o comissário de Comércio da Comissão Europeia e peça-chave nas negociações da parceria comercial.

A entrevista foi concedida pelo diplomata espanhol ao Congresso em Foco sob o calor da divulgação dos dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) que indicam que o desmatamento ilegal na Amazônia cresceu 9,5% em um ano, o maior desde 2008. Um indicativo que, na visão do embaixador europeu, as medidas adotadas pelo governo brasileiro são insuficientes e que a desconfiança do bloco em relação ao Brasil não está próxima de acabar. “Não vamos ter mudança do dia para a noite, somos conscientes disso. Mas se continuar a aumentar o desmatamento fica claro que as medidas adotadas são insuficientes”, afirmou.

O capítulo de comércio e desenvolvimento sustentável é considerado fundamental para a celebração do acordo entre União Europeia e Mercosul. Os europeus cobram do Brasil a apresentação de compromissos políticos e de dados que mostrem que o país está na rota do desenvolvimento sustentável, uma das premissas para a formação do maior acordo de blocos do mundo.

Para o embaixador europeu, o Brasil começou a dar um passo à frente a partir do momento em que o vice-presidente Hamilton Mourão admitiu que a situação na Amazônia é preocupante e que o Estado nunca se fez presente na região, a não ser com a presença de militares. Reconhecer o problema, na visão do diplomata, é o primeiro passo para enfrentá-lo. Com discurso oposto ao do seu vice, o presidente Jair Bolsonaro nega as devastações ilegais e culpa ONGs e governos estrangeiros de quererem roubar as riquezas da região com as críticas que fazem ao desmatamento crescente.

Presidente do Conselho da Amazônia, Mourão é o principal interlocutor do governo brasileiro com a Europa. Ybáñez deixa claro que a interlocução da União Europeia é com o vice-presidente e que não se ente atingida com as declarações de Bolsonaro – voltadas, segundo ele, apenas para sua “paróquia”.

“Acho que as declarações dos políticos, sejam brasileiros ou europeus, são mensagens mais para sua própria paróquia, para os votantes de seu país. Nós não votamos no Brasil. Acho que não são mensagens dirigidas a nós”, diz. O diplomata conta que, ao apresentar suas credenciais de embaixador da União Europeia a Bolsonaro, ouviu do presidente que o Brasil estava disposto a cumprir os compromissos para que a parceria pudesse ser efetivada.

Embaixador descarta facilitar cumprimento das metas

Ybáñez também é enfático ao dizer que não há chance de o acordo entre União Europeia e o Mercosul ser revisto para facilitar o cumprimento das metas e acelerar a conclusão do processo. “Ao contrário, se pensarmos nessa desconfiança, nessa falta de confiança que existe na Europa a respeito do desempenho do governo brasileiro, seria bom encontrar compromisso político que possa ser apresentado na Europa sobre esses compromissos”, defende o diplomata. “É muito bom o acordo, não é preciso reabri-lo. Queremos que ele fique no estado em que está. Acreditamos nele”.

O embaixador ressalta que os governos europeus também terão de fazer sua parte para ajudar o Brasil. As propostas, segundo ele, ainda estão em estudo e devem levar em conta as demandas do governo brasileiro e de entidades da sociedade civil. “Temos do lado europeu que apresentar algumas ideias, é um pedido do vice-presidente Mourão. Estamos trabalhando nessa direção, mirando as preocupações expressadas pela sociedade civil brasileira, pelos centros de pesquisas e pelo esforço do governo brasileiro”, afirma.

O diplomata entende que não há como arriscar uma data para a conclusão do acordo. No início do ano, havia a expectativa de que o desfecho ocorresse até 31 de dezembro, quando a Alemanha deixa a presidência rotativa do conselho. Pelo rodízio semestral entre os países, Portugal comandará o colegiado entre janeiro e junho de 2021. “Uma vez que essa confiança [no Brasil] seja restabelecida, podemos iniciar o processo, primeiro, de assinatura e, depois, de ratificação”, explica. Só depois da ratificação é que o acordo será submetido à avaliação dos conselhos dos países-membros, onde também provocará. 

Confira a entrevista completa no site congressoemfoco.com.br

Brasil, o pária, ficou mesmo de fora do púlpito da cúpula do clima da ONU

bolsonaro-ricardo-sallesJair Bolsonaro e Ricardo Salles são os principais artífices da transformação do Brasil em pária global

Desde agosto de 2016 venho escrevendo sobre os custos econômicos e políticos que a transformação do Brasil em uma espécie de pária ambiental por sucessivos golpes contra a governança ambiental e as estruturas de comando e controle que foram construídas a duras penas a partir da Conferência da ONU para o Meio Ambiente realizada em Estocolmo em 1972.

Confirmada hoje a exclusão do Brasil da lista de países que poderão se pronunciar na edição de 2020 do “Climate Ambition Summit“, chegamos muito mais próximos da condição de párias dentro da comunidade global. 

Ainda que muitos, dentro e do governo Bolsonaro, batam de ombros com o tapa na cara que o Brasil está levando da ONU por causa, principalmente, da falta de compromisso com as metas de controle das mudanças climáticas, a situação é séria, na medida em que esses encontros estarão decidindo metas de emissões que posteriormente serão utilizadas para regular até as trocas internacionais de mercadorias.

Pode-se até dizer que as mudanças climáticas estão sendo usadas como uma nova forma de controle de comércio internacional, o que me parece até óbvio.  O problema é que, como até naquele momento em que você recebe o golpe do paco, não adianta saber que estamos sendo objeto de uma manobra esperta, há que se estar preparado para não cair nele.  

Ao sabotar intencionalmente o papel do Brasil nas discussões multilaterais em torno do controle e mitigação das mudanças climáticas, o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro (ou seria anti-ministro?) do Meio Ambiente, o improbo Ricardo Salles, estão prestando um grande desserviço aos interesses estratégicos do nosso país. O problema é que para se chegar ao nível pária é relativamente fácil, sair dessa condição é bem mais difícil. Como o governo Bolsonaro ainda tem pelo menos mais 24 meses de existência, a profundidade do buraco poderá ser ainda maior quando este governo chegar aos seus estertores.

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Um grupo de quem eu esperaria uma reação mínima à colocação do Brasil na condição de pária pode ser surpreendente para leitores deste blog, o latifúndio agro-exportador (a.k.a. agronegócio), até agora se mantém em posição de mutismo quase completo. É que o latifúndio agro-exportador é um dos que mais têm mais a perder com a barafunda estabelecida pelo governo Bolsonaro. Assim, ainda que as principais lideranças do latifúndio agro-exportador tenham sido fiadoras ardorosas da candidatura de Jair Bolsonaro, a inação frente ao desmanche da governança ambiental e das estruturas de comando e controle é quase que um atestado de ignorância que equivale ao que alguns chamam de “agrosuicídio”.  Vai entender essa gente…..

Academia Nacional de Medicina emite nota sobre crise sanitária causada pela COVID-19

academia nacional

A Academia Nacional de Medicina, em seus 191 anos de luta pela saúde da população brasileira e como instituição apolítica, manifesta enorme indignação pelo descaso, descuido e negligência por parte das autoridades governamentais e da classe política que seguem omissas e servis a interesses eleitorais, menosprezando a vida dos cidadãos. 

Como entidade de assessoramento à política de saúde do país, nos cabe apresentar, novamente, propostas e conclamar a sociedade brasileira a não ficar omissa, sob o risco de sermos corresponsáveis por erros que seguem prejudicando de maneira grave o Brasil. 

A Academia Nacional de Medicina acompanha com extrema preocupação a evolução da pandemia pela COVID-19, que recrudesce no Brasil. O negacionismo irresponsável de muitos gestores e políticos precisa cessar já. Grande parte das 200 mil mortes que logo contabilizaremos poderia ter sido evitada. O tempo perdido com a falsidade, matou dezenas de milhares e vai seguir matando!

Quanta falta de decoro sanitário e inacreditável leviandade. Ignorância vergonhosa!

Sem dúvida, os executivos federal, estadual e municipal têm a maior responsabilidade, mas também o poder legislativo tem obrigação de assumir seu protagonismo, sendo indispensável o entendimento entre os gestores ao invés de inúteis debates político-demagógicos. Também, muitos governadores e prefeitos ardilosamente se omitem, não exercendo o poder de disciplinar e controlar as atividades sociais.  

A Sociedade tem de dar um basta!

É preciso impedir que a população se infecte. Não há outra solução. Sim, a vacina é indispensável e prioritária, mas não bastará. Serão muitos meses para se conter a epidemia e, antes, durante e depois, teremos que seguir usando máscaras e condutas sociais cientificamente comprovadas. 

Há necessidade imediata de implementação de exemplos e de medidas de proteção individual e coletiva, controlando-se o risco aumentado pelas atividades recreativas e sociais, atualmente descontroladas pela falta de liderança.

A vacina segue sendo explorada, de forma irresponsável, por autoridades que podem se merecer, mas o povo brasileiro não os merece. 

Para se evitar uma tragédia ainda maior, é imprescindível a priorização da avaliação técnica das diferentes vacinas e a imediata liberação de todas as que forem aprovadas pela Anvisa. 

Há necessidade premente da vacinação, como ocorre em outros países, nos quais, inclusive, já vem sendo aplicada.

Não há razão para punirmos mais o Brasil com a morosidade proposta de se aguardar meses. 

Estamos muito atrasados e precisamos construir estratégia sólida que permita, já no início de 2021, a realização segura da vacinação em massa da população. É impossível a vacinação contra a COVID-19 dar certo com planos nacionais e estaduais paralelos.

Uma irresponsável disputa levou à perda de precioso tempo na definição de um plano nacional de imunização efetivo, apesar de termos um extraordinário e bem-sucedido programa nacional de imunizações pelo SUS, reconhecido mundialmente por sua qualidade.

Além da vacina, é necessário educar e estimular exemplos e programas de informação adequados para o uso obrigatório de máscaras, do afastamento entre as pessoas, de coibir, a todo custo, as aglomerações. 

A testagem em massa é outra medida imprescindível, capaz de detectar casos e definir medidas epidemiológicas e de saúde pública que reduzam drasticamente a propagação da epidemia.

Enfim, uma coordenação das ações de forma eficiente em todas as esferas. 

Na defesa de milhares e milhares de vidas que certamente serão ainda perdidas, se essa política suicida e criminosa não for de imediato inteiramente modificada, a Academia Nacional de Medicina, mais uma vez, manifesta enorme preocupação e conclama a todos da sociedade brasileira a exigir de nossos governantes e políticos o que o Brasil tem direito e não vem recebendo.

Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 2020

academia assinatura

Jair Bolsonaro é cortado da Cúpula do Clima, e Brasil paga mico internacional

bolso fogo

A ONU (Organização das Nações Unidas) confirmou que o presidente Jair Bolsonaro não está na lista de líderes que participarão do chamado Climate Ambition Summit (a chamada Cúpula do Clima, marcada para amanhã (12/12).  Isso fica explícito porque, ao contrário de outros países sul americanos (Argentina, Chile, Colombia, Peru e Uruguai), o Brasil não aparece na lista de líderes que poderão se pronunciar no evento. Há que se mencionar que até Cuba deverá se pronunciar no evento que deverá ter como estrelas o presidente Emmanuel Macron (França), a chanceler Angela Merkel (Alemanha) e o presidente Xi Jinping (China).

summit

Esse é, digamos, um “mico” sem precedentes, pois em décadas recentes, o Brasil era um dos líderes dos debates climáticos, muitas vezes jogando o papel de mediador entre as demandas dos países desenvolvidos e a dos chamados países em desenvolvimento.  Mas tanto fizeram que Jair Bolsonaro e Ricardo Salles conseguiram colocar o Brasil em uma posição inédita de ostracismo, justamente em um momento em que a União Europeia, apenas à guisa de exemplo, decidiu adotar metas ambiciosas de redução de emissão de gases estufa que deverão ser alcançadas até 2020.

Como aquilo que está ruim pode sempre piorar, o grupo  Climate Action Tracker requalificou e rebaixou a situação dos compromissos  de “insuficiente” para “muito  insuficiente”.  Além disso, o Brasil conquistou dois troféus do prêmio de “Fóssil Colossal” dos últimos 5 anos na categoria “Não protege sua população dos impactos das mudanças climáticas” e “Reduz a participação da sociedade civil”.  O anúncio aconteceu nesta sexta-feira (11/12), véspera da Cúpula de Ambição Climática, que marcará o aniversário de 5 anos do Acordo de Paris, e é um evento preparatório para a COP26, que será realizada na Escócia em 2021. Esta é a terceira vez em que Bolsonaro leva o Brasil a receber o prêmio da CAN. Em 2018, o país levou o troféu depois de o então presidente eleito ter anunciado que o país não sediaria a próxima conferência climática e por ainda ameaçar tirar o Brasil do Acordo de Paris; em 2019, pela tentativa de legalizar a grilagem. Na cerimônia de hoje, o país foi descrito como uma nação governada por “Jair Capitão Motosserra Bolsonaro” que parece estar tentando “transformar os pulmões do mundo no pior lugar do planeta para ser uma árvore.”   

popliri@gmail.com on Twitter: "#Brazil, #Amazonia, our natives, our  wildlife, are now in the hands of Bolsonaro, the "Captain Chainsaw"!… "

Para quem acha que esse alijamento do Brasil das decisões multilaterais relacionadas ao controle das mudanças climáticas é, digamos, de menor importância, eu diria que, pelo contrário, essa é uma situação muito grave para os interesses estratégicos do Brasil, a começar pela economia. 

Observatório do Clima avisou em 2016 sobre “pedalada” na meta climática do Brasil

Pedido de ajuste na NDC para 57% à luz de novo inventário consta de análise do SEEG de quatro anos atrás

painel

Painel sobre os desafios do NDC no Brasil

DO OC – O governo (Bolsonaro) não pode alegar surpresa por ter sido excluído da Cúpula de Ambição Climática ao apresentar uma meta no Acordo de Paris que permitirá ao Brasil aumentar suas emissões. O Observatório do Clima já alertava para o problema contábil na chamada  Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDC) do Brasil desde 2016.

Na quarta edição do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa), que fez naquele ano a primeira análise da NDC (então INDC) brasileira, o OC notou que a meta de 37% e a meta indicativa de 43% precisariam ser ajustadas de forma a ficarem compatíveis com a contabilidade mais recente de emissões.

Isso porque em 2016 o Brasil publicou um novo inventário nacional de gases de efeito estufa, que elevou as emissões do país em 2005.

O alerta foi feito no seminário de lançamento do SEEG, em outubro de 2016, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com presença de técnicos do governo federal. Na síntese do relatório analítico do SEEG, publicado em 2017, o aviso foi repetido:

“A referência para a INDC foram os dados do Segundo Inventário. Quando foi publicada a Terceira Comunicação Nacional do Brasil à UNFCCC, com os dados do Terceiro inventário (abril de 2016), houve uma revisão dos dados de emissão em toda a série histórica; especificamente em 2005, as emissões subiram para 2,8 GtCO2e (GWP-100; IPCC AR5), 25% maiores que as emissões conforme o Segundo Inventário.”

“Essa alteração foi resultado da evolução na metodologia de cálculo das emissões e remoções por mudança de uso da terra e florestas. Como a meta da INDC estava expressa primeiro em redução percentual em relação às emissões de 2005 e depois eram expressas na nota explicativa (anexada à INDC ‘apenas para informação’) em valores absolutos de emissões em 2025 e 2030, o OC defendeu um ajuste na NDC à luz dos novos dados.”

“Ao tomar como base as emissões totais de 2005 contidas no Terceiro Inventário, a meta de redução de emissões expressa em porcentagem faria com que a emissão projetada para 2030 fosse 400 MtC2Oe maior que o indicado na INDC (1.617 milhões contra 1.216 milhões de toneladas), o que representa quase 1% das emissões globais. Caso sejam mantidos os limites absolutos das emissões em 1.216 MtCO2e, a porcentagem de redução em 2030 fica em 57%, o que é certamente mais ambicioso.”

O relatório-síntese, com todos os cálculos e todas as tabelas, pode ser baixado aqui.

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Este texto foi originalmente publicado pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Moradores desconfiam que Vale usa sirenes para implantar terror sorono em Nova Lima (MG)

mar azul

Moradores afetados pelo iminente rompimento das barragens de rejeitos da mina Mar Azul em Nova Lima (MG) estão revoltados com a realização de intermináveis testes de sirene pela mineradora Vale, os quais incluem o uso de música clássica, mas que servem apenas para instalar um estado de terror social entre os habitantes daquele território (ver imagem abaixo). 

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Segundo uma fonte familiar com a situação das famílias afetadas no  Distrito de São Sebastião das Águas Claras (Macacos), a pergunta que muitos moradores estão fazendo é sobre até quando a Vale pretende continuar fazendo os testes com sirene, bem como sobre qual seria a intenção efetiva da empresa. É que segundo essa fonte, esses testes em vez de fazerem que os moradores se sintam mais  seguros, acabam causando mais intranquilidade, ansiedade e medo. Isto sem falar nos prejuízos econômicos para proprietários das pousadas existentes na região, pois, afinal, quem vai querer sair de casa para acabar tendo que fazer o “turismo sonoro” da Vale?

Essa mesma fonte nota que, como já foi informado neste blog, a Vale já vem interferindo dentro dos territórios afetados pelo eventual rompimento das suas barragens em Nova Lima, incluindo a colocação de obstáculos físicos que estão dificultando a movimentação dos moradores dentro de suas próprias propriedades. Agora, com a realização desses testes sonoros, acrescenta-se mais um elemento de perturbação ao cotidiano dos habitantes da região que já estão convivendo com o intenso barulho de máquinas que operam sem qualquer consideração em relação a horários, o que vem causando sérios transtornos a quem vivia acostumado a uma vida marcada pela tranquilidade.

Há que se lembrar que no caso do rompimento da barragem da Samarco (Vale+ BHP) em Bento Rodrigues não houve o acionamento de sirenes, até porque elas inexistiam. Por isso, mesmo os moradores de São Sebastião das Águas Claras estão desconfiados das reais intenções da Vale e seu uso contínuo de testes com sirenes. Afinal, quando a esmola é demais o santo desconfia.

3 das 4 empresas com mais agrotóxicos liberados por Bolsonaro têm um pé na China

Números mostram que discurso do presidente brasileiro contra a China é apenas “cortina de fumaça”, diz pesquisador

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Presidente chinês Xi Jinping ao lado de Bolsonaro durante a cúpula dos BRICS em 2019 – Sergio LIMA / AFP

Por Daniel Giovanaz para o Jornal Brasil de Fato | 

Três das quatro empresas que mais detêm registros de agrotóxicos liberados pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido) em 2020, Rainbow Defensivos Agrícolas Ltda., Adama S.A. e Ouro Fino Química S.A., têm vínculos diretos com a China. Elas são titulares dos registros de 65 dos 470 agrotóxicos autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) este ano.

Em alinhamento com Donald Trump, presidente dos EUA derrotado nas eleições 2020, Bolsonaro e sua família mantêm um discurso de ataques à China, especialmente nas redes sociais.

“Não compraremos vacina chinesa [contra covid-19]”, disse o presidente em outubro, em referência à CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan. No caso dos venenos, o “crivo ideológico” parece menos rigoroso.

“Esse debate todo é uma cortina de fumaça. O governo Bolsonaro não quer gastar com vacina. É uma opção fiscal do Paulo Guedes [ministro da Economia] e do Bolsonaro”, analisa o geógrafo Marcos Antonio Pedlowski, professor associado da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).

“Os chineses são muito eficientes e têm produtos em quantidade avassaladora. O Brasil não tem como ‘se livrar’ da China, porque a dependência é muito grande”, acrescenta o pesquisador, ressaltando que a maioria dos estados brasileiros têm a China como maior parceiro comercial. “E o neoliberalismo do Guedes, que não coloca nenhum limite, habilita a China a fazer o que bem entende.”  

Nortox

A empresa que detém mais registros de agrotóxicos liberados no Brasil em 2020, Nortox S.A., é a única das quatro primeiras da lista sem escritórios ou sócios do país asiático. Por outro lado, dos 28 agrotóxicos autorizados este ano em nome da Nortox, 18 têm a China como fabricante primário.

Com sede em Arapongas (PR), a empresa tem buscado aproximar os vínculos com o gigante da Ásia. Em junho de 2018, seis representantes da Nortox estiveram em Pequim e Xangai para reuniões na Academia de Ciências da China e na Embaixada Brasileira na China, além de visitas a uma fábrica de defensivos agrícolas, uma esmagadora de soja e uma fazenda local.


Nortox divulgou viagem de representantes à China em 2018 / Reprodução / Facebook

Rainbow

A Rainbow Defensivos Agrícolas Ltda. é titular do registro de 23 agrotóxicos autorizados no Brasil em 2020. Com sede em Porto Alegre (RS), ela é a subsidiária brasileira da Rainbow Chemical, fundada em Jinan, capital da província de Shandong, em 2005.

A empresa tem três sócios: duas pessoas jurídicas sediadas na China – Shandong Rainbow Agrosciences Co. e Shandong Weifang Rainbow Chemical Co. – e uma pessoa física, o chinês Zhiping Zhou.

Das quatro pessoas jurídicas com maior número de agrotóxicos liberados no Brasil este ano, a Rainbow Defensivos Agrícolas Ltda. é a única que não atua como fabricante no Brasil – ela apenas importa e revende os produtos no país, no atacado e no varejo. Em todos os 23 registros em nome da empresa em 2020, empresas chinesas aparecem como fabricante primário.

A Rainbow é a 11ª maior empresa agroquímica do mundo, com presença em mais de 60 países.

Adama

Titular de 23 registros de agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro em 2020, a Adama Brasil S.A. tem sede em Londrina (PR) e é subsidiária do grupo israelense Adama, que pertence à companhia estatal chinesa ChemChina desde 2014.

Em 2016, a ChemChina adquiriu outra gigante do setor: a multinacional suíça Syngenta.

Treze dos 23 agrotóxicos registrados em nome da Adama Brasil S.A. este ano possuem componentes fabricados na China.

 Ouro Fino

A quarta colocada na lista é a Ouro Fino Química S.A., com sede em Uberaba (MG). Dos 19 agrotóxicos registrados em nome da empresa em 2020, 16 têm empresas chinesas como fabricante primário.

Em 2012, a Ouro Fino abriu um escritório em Xangai, na China, de onde vêm mais de 75% das importações da empresa. O evento reuniu mais de 40 empresários chineses e autoridades dos governos dos dois países.


Bolsonaro mantém discurso anti-China, mas presença do país no mercado nacional só cresce / Sergio Lima / AFP

Preponderância pode ser ainda maior

Entre as demais empresas titulares de registros de agrotóxicos liberados por Bolsonaro em 2020 estão Biorisk Ltda. e Cropchem Ltda., ambas com 15; Allierbrasil Agro Ltda., com 12; Iharabras S.A., com nove; Syngenta, com nove; Agrivalle, com oito; BRA Defensivos e BASF, com sete; Rotam, com seis; Syncrom, com cinco; além das subsidiárias da Dow Agrosciences e da Du Pont no Brasil, com quatro.

Marcos Pedlowski, que sistematiza desde o início do governo Bolsonaro as autorizações de agrotóxicos, chama atenção para o número relativamente baixo de produtos fabricados por gigantes da indústria química europeia e estadunidense.

“Empresas como a [alemã] BASF estão ‘deixando’ os chineses tomarem conta do mercado de agrotóxicos para preservar sua imagem corporativa. Porque há outras áreas nesse setor em que podem ganhar dinheiro sem ‘sujar’ tanto a sua imagem”, afirma.

Líder mundial em produção de agrotóxicos, a China pode ter, na prática, uma predominância ainda maior no mercado brasileiro do que sugerem os números. O professor da UENF lembra que países como Suíça e Israel aparecem entre os dez maiores fabricantes primários de agrotóxicos liberados no Brasil.

“Em geral, são da Syngenta [Suíça] e da Adama [Israel], já sob controle chinês”, finaliza.

Edição: Rodrigo Chagas

fecho

Este artigo foi inicialmente publicado pelo jornal Brasil de Fato [Aqui!].