Convite de apoio ao “Direto da Ciência”

Maurício Tuffani

Impulsionado pelo jornalista Maurício Tuffani, o “Direto da Ciência” é atualmente um dos principais instrumentos de disseminação de informação de qualidade sobre assuntos ligados à ciência, meio ambiente e ensino superior.

Em função dessa importância é que faço um convite aos leitores deste blog para que conheçam e apoiem financeiramente o “Direto da Ciência”. É fundamental que não percamos este espaço de jornalismo independente.

Posto abaixo um material produzido pelo “Direto da Ciência” para explicar seus objetivos e garantir os recursos financeiros para manter-se em funcionamento.

Eu que já sou assinante do “Direto da Ciência” é que convido a todos os leitores deste blog que façam o mesmo.  Investir no bom jornalismo científico é sem dúvida uma  necessidade estratégica neste momento em especial.

Apoie o jornalismo crítico e independente em ciência, ambiente e ensino superior

 

“Trabalhar mais que todos os colegas. Dormir sabendo que nenhum outro jornalista que esteja cobrindo o mesmo caso trabalhou mais que você. Não ter medo de dizer: ‘Desculpe, mas não entendi bem’. Aprender a escrever. Ser ambicioso, ter ideais. Não se deixar amedrontar, desconfiar do poder e duvidar da versão de quem governa.”
(Benjamin Bradlee, respondendo à pergunta “Qual é a receita do bom jornalista?” ao jornal italianoCorriere della Sera, em setembro de 1991, após se aposentar no cargo de editor-chefe do Washington Post, onde comandou a cobertura do caso Watergate.)

Lançado no final de março de 2016, Direto da Ciência já é amplamente reconhecido como um site jornalístico com uma perspectiva independente, investigativa e crítica sobre temas de ciência, meio ambiente e ensino superior. Seu focos principais nessas três áreas são

  • informações de interesse público que não são públicas,
  • articulações políticas, conflitos e bastidores,
  • temas não abordados pelos meios de comunicação e
  • perspectivas geralmente não consideradas pela imprensa.

Direto da Ciência também publica diariamente de segundas às sextas-feiras seu Boletim de Notícias, que informa quais são os principais artigos, reportagens, notas oficiais e outras informações relevantes mais recentes sobre ciência, meio ambiente e ensino superior. Os avisos do Boletim de Notícias e de todas as publicações de Direto da Ciência são enviados gratuitamente.

Independência e dedicação têm custo. E conteúdo exclusivo e de alta qualidade exige não só competência, mas também investimento para ser produzido. Como Direto da Ciência não conta com publicidade para cobrir seus custos, o site vem com dificuldade tentando se manter por meio da captação de recursos por assinaturas e doações.

Quanto maior for esse apoio, maior será o investimento de tempo e de recursos de Direto da Ciência em análises e em reportagens investigativas, inclusive para ampliar gradualmente o trabalho do site, possibilitando até contar com a colaboração de outros jornalistas.

O apoio a Direto da Ciência vai garantir que esteja livremente acessível na internet a informação jornalística de qualidade, de interesse público e com abordagem crítica, investigativa e independente sobre ciência, meio ambiente e ensino superior. É o apoio de pessoas que querem essa informação produzidas não só para elas mesmas, mas para toda a sociedade.

O compromisso de Direto da Ciência é com essa perspectiva jornalística e com o público que a exige.

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Obrigado.

MAURÍCIO TUFFANI
Editor

(Clique aqui para saber quem é.)

Governo Temer prepara o terreno para ampla destruição ambiental e social na Amazônia brasileira

Resultado de imagem para mineração renca povos indigenas

Está ficando cada vez mais claro que um amplo ataque está sendo preparado pelo governo “de facto” de Michel Temer contra os ecossistemas amazônicos e as populações que neles habitam.  O exemplo mais recente foi a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) que abrirá um território equivalente à Dinamarca à sanha exploradora das mineradoras [1, 2].  

el pais amazonia

Além disso, temos em andamento uma ampla regressão da legislação que regula o processo de licenciamento ambiental que facilitará não apenas a expansão das atividades de mineração, mas também da implantação ainda mais rápida de pastagens. Se não bastasse isso, também há um processo em curso para afrouxar o Código de Mineração.

Em outras palavras, temos um processo misturado de modificações nas proteções (frágeis é preciso que se diga) que foram colocadas em vigência a partir da Conferência  Mundial sobre o Homem e o Meio Ambiente realizada pela ONU em Estocolmo em 1972.

Mas não bastassem esses riscos evidentes, ainda temos a informação dada pela cadeia inglesa BBC de que no caso da extinção da Renca, os representantes do governo “de facto” de Michel Temer já haviam avisado à mineradores canadenses já em Abril de 2017 que isto seria feito [3].

bbc amazonia

O oferecimento deste tipo de informação a potenciais mineradoras se reveste num completo escândalo já que estas deveriam ser informações confidenciais. Mas como estamos vivendo sob o jugo de um presidente que não tem o menor prurido em confrontar leis, mais esse absurdo está passando em brancas nuvens.

As consequências do que o jornal espanhol El País rotulou de “nova caça ao ouro na Amazônia” serão devastadoras não apenas na região anteriormente protegida pela Renca, mas em outras áreas que sofrerão destino semelhante.  E a devastação não será apenas em termos ambientais, mas também sobre populações que vivem em direta dependência da integridade ecológica dos ecossistemas amazônicos, começando pelos povos indígenas [4, 5].

Aos que esperam que algo milagroso aconteça nas eleições presidenciais de 2018, o problema é  que se o governo Temer continuar operando da forma que está, principalmente em termos da inexistência reação dos setores mais organizados da sociedade brasileira, a situação será tão explosiva que nem Lula conseguirá impedir graves conflitos de natureza socioambiental na Amazônia brasileira.


[1]  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/24/politica/1503605287_481662.html.

[2] http://www.diretodaciencia.com/2017/08/25/da-forma-como-foi-feita-extincao-da-renca-traz-risco-para-a-amazonia/

[3] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-41033211?ocid=socialflow_facebook.

[4] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/08/25/Governo-extingue-reserva-de-min%C3%A9rios.-Por-que-isso-pode-impactar-o-meio-ambiente

[5] https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/redacao/2017/08/23/governo-extingue-reserva-de-cobre-para-atrair-investimentos-em-mineracao.htm

 

Porque apoio a campanha de captação de recursos do “Direto da Ciência”

Venho acompanhando o “Direto da Ciência” desde o seu lançamento em Matço de 2016, e não hesito em dizer que o jornalista Maurício Tuffani já logrou êxito no seu arrojado projeto editorial que oferece continuamente informações qualificadas sobre o que anda acontecendo no Brasil e no mundo sobre assuntos relacionados ao desenvolvimento da ciência em geral, mas sem deixar de lado elementos relativos ao ensino superior e o meio ambiente.

Agora ví que o Maurício Tuffani decidiu iniciar uma  etapa de captação de recursos por meio de assinaturas e doações que possam permitir a manutenção do “Direto da Ciência” como uma plataforma jornalística autônoma e altamente qualificada.

Por entender que vivemos um momento especialmente complexo onde está se tornando muito comum a negação da importância do conhecimento científico e da formação de recursos humanos qualificados, penso que será fundamental apoiar essa iniciativa do jornalista Maurício Tuffani. 

Assim, eu não só decidi apoiar financeiramente o “Direto da Ciência”, mas como também convido a todos os leitores do blog que se interessem pelas temáticas ali tratadas que façam o mesmo.

Clique aqui para apoiar Direto da Ciência.

Desmatamento na Amazônia: números explosivos são apenas a ponta do iceberg

O jornalista Maurício Tuffani abordou hoje no seu “Direto da Ciência” o problema expresso pelos últimos dados sobre o desmatamento raso na Amazônia brasileira, e lembrou que existem ainda outros fatores importantes de degradação como o fogo e a extração seletiva de madeira para que se componha uma imagem mais acabada da perda da biodiversidade naquele bioma (Aqui!).

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Acredito que é fundamental a lembrança feita por Maurício Tuffani sobre o fato de que o corte raso é apenas uma fração (talvez até menor) da perda de biodiversidade na Amazônia. É que já em 2010 fui co-autor de um artigo publicado pela revista “Remote Sensing of Environment” (Aqui!) onde ficou estimado que 70% das florestas amazônicas possuíam algum nível de degradação por causa da extração seletiva de madeira. Além disso, também apontamos a forte sinergia existente entre extração seletiva, penetração de fogo e a prática do corte raso.

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De lá para cá, as evidências que já foram obtidas por meio de pesquisas subsequentes e que ainda serão publicadas é que houve um espalhamento considerável das áreas sendo afetadas pela extração seletiva de madeira, o que permite a inferência de que o aumento já detectado nas novas que tiveram a floresta completamente erradicada ainda não deve ser um momento de pico. Em outras palavras, as taxas anuais de desmatamento ainda deverão aumentar nos próximos anos.

A pergunta que pode ser feita imediatamente é a seguinte: por que estamos assistindo ao retorno de taxas explosivas de corte raso na floresta Amazônica? Para mim que fui pela primeira vez no estado de Rondônia em fevereiro de 1991 quando ainda havia muita floresta nativa na sua região central e que hoje está totalmente desmatada, o que estamos presenciando é o equivalente a uma tempestade perfeita. 

É que se pegarmos variáveis como a expansão da pecuária de corte, das monoculturas de cana de açúcar e soja, a perda de controle sobre a extração de madeira, a diminuição da proteção às unidades de conservação, e somar tudo isso aos projetos de rodovias e hidrelétricas que foram fomentados por meio do chamado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), o resultado não poderia ser outro que não um aumento explosivo nas diversas formas de degradação da floresta Amazônica.

Para completar essa tempestade perfeita ainda tivemos a aprovação do novo Código Florestal, (ao qual brevemente se juntará a reforma do Código de Mineração, é preciso lembrar ), que sob o argumento de modernizar a legislação, acabou por facilitar a vida dos diferentes agentes responsáveis pelo desmatamento, aí podemos ter uma fotografia completa da tragédia.

Mas como naquela Lei de Murphy que dita que aquilo que está ruim sempre pode piorar, o governo “de facto” de Michel Temer abandonou o discurso pragmático que reinou por mais de uma década que ditava que era possível combinar desenvolvimento com conservação, e partiu para liberar geral. De quebra, ainda tivemos o retorno de Zequinha Sarney ao comando do Ministério do Meio Ambiente, enquanto no Ministério da Agricultura foi colocado o dublê de senador e mega latifundiário Blairo Maggi. Esse descompasso de figuras e de poderes entre os dois ministérios sugere um novo elemento para jogar mais energia na tempestade perfeita que está engolindo rapidamente grandes áreas de floresta para transformá-las rapidamente em territórios do “agrobusiness” e das mineradoras.

Toda esse contexto obrigará a comunidade científica a sair de uma posição quase chapa branca que perdurou ao longo dos anos Lula/Dilma para uma ação mais diligente para estabelecer o real tamanho do problema que estamos enfrentando na Amazônia neste momento. O duro vai ser fazer isso com o orçamento congelado nas universidades e instituições de pesquisa.

Na ciranda dos INCTs tem lugar para instituto com artigos despublicados

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Venho abordando neste blog uma série de mazelas que estão cercando o edital dos chamados Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) cujo principal financiador é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ( Aqui!Aqui! e Aqui!).

Nestas postagens eu havia identificado problemas como cortes orçamentários e mudança na lista final de projetos aprovados para financiamento pelo CNPq e, mais recentemente, pelas fundações estaduais de amparo à pesquisa.  A questão mais sensível que abordei em artigo em co-autoria com o Prof. Carlos Eduardo Rezende foi a alteração da lista de projetos aprovados, sem que os critérios de inserção e remoção tivessem sido divulgados.

Pois bem, o jornalista Maurício Tuffani do blog Direto da Ciência acaba de adicionar mais um elemento problemático na odisséia em que se tranformou o financiamento dos INCTs. Segundo  o que Maurício Tuffani revelou no dia de hoje (Aqui!), o líder de um dos projetos aprovados para ser aquinhoado com R$ 5 milhões de financiamento teve vários artigos retratados (ou seja despublicados) por conterem erros suficientemente graves para terem sua qualidade científica colocada sob suspeita.

tuffani

Sem querer tecer maiores julgamentos sobre o caso específico que o jornalista Maurício Tuffani apurou, o problema principal parece estar nos critérios que vem balizando a distribuição de recursos governamentais para fomentar a ciência no Brasil. Esse caso, que não deve ser o único, deveria ter sido objeto de uma análise mais criteriosa no momento em que se definiu a lista de projetos aprovados. É que de cara parece incorreto premiar com financiamento público um grupo de pesquisadores que teve não um, mas oito artigos retratados. Entretanto, como já mostrei anteriormente, falta de critérios transparentes tem sido justamente a marca da aprovação dos projetos aprovados no edital dos INCTs.

Além disso, como ficou bem demonstrado na matéria preparada por Maurício Tuffani, a despublicação destas pesquisas era de conhecimento dos comitês que avaliaram e aprovaram o financiamento do chamado “Instituto Nacional de Obesidades e Diabetes (Inod)”. Em outras palavras, ter artigos despublicados não compromete financiamentos com dinheiro público. Mas que beleza lição os comitês avaliadores estão dando para a comunidade científica brasileira, especialmente para os pesquisadores mais jovens!

O mais lamentável neste caso é que não haja quem queira falar publicamente sobre essa aprovação, como bem revela Mauricio Tuffani. Como em outros casos, nem parece que estamos falando de pessoas altamente gabaritadas e comprometidas com o avanço da ciência nacional.  Novamente, que bela lição estamos dandos aos nossos pesquisadores mais jovens.

Finalmente, eu tenho a impressão que se o jornalista Maurício Tuffani continuar cavocando no caso do edital dos INCTs, ele ainda achará mais minhocas, e bem gordinhas. Sei lá, chamem de inferência lógica.

No Direto da Ciência, professor emérito da UNB coloca o dedo na ferida

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Em um artigo publicado hoje no blog “Direto da Ciência” do jornalista Maurício Tuffani, o professor emérito da Universidade Nacional de Brasília (UnB) Nagib Nassar fala de suas expectativas sobre a nova presidência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e aproveita para colocar o dedo na ferida da ciência nacional (Aqui!).

Apesar de não compartilhar da mesma expectativa positiva, pois penso que os elementos estruturais que o Prof. Nassar aponta corretamente em seu texto independem da pessoa do presidente do CNPq. Entretanto, não há como deixar de observar que as questões apontadas como problemáticas pelo Prof.  Nassar no processo de distribuição de recursos estão corretas. 

Aliás, como já venho observando faz algum tempo, a cultura de priveligiar quantidade versus qualidade na distribuição, por exemplo, das bolsas de produtividade do CNPq geraram uma série de vícios ao permitir, entre outras coisas, o avanço das publicações “trash science” como fontes legítimas de validação de produtividade científica (Aqui!Aqui! e Aqui!).  Esse avanço do “trash science” é inegavelmente um sub-produto da corrupção do processo de “revisão por pares” que é citado pelo Prof. Nassar como um dos sintomas do descontrole que estaria existindo dentro do CNPq no processo de avaliação de projetos de pesquisas submetidos para eventual recebimento de verbas públicas. 

Ainda no tocante à entrega de bolsas de produtividade, penso que se pode ir além nos questionamentos apresentados pelo Prof. Nassar. É que ele aponta a incapacidade de muitos pesquisadores de Nível 1 (A e B) de serem autores principais nos numerosos artigos que incluem em seus currículos na Base Lattes do CNPq. eu vou além e afirmo que muitos pesquisadores 1 que eu conheço não mostram a capacidade de sequer entender a responsabilidade que este tipo de outorga meritocrática implica no desenvolvimento de uma cultura científica dentro de suas instituições. Na verdade, muitos desses pesquisadores ditos do topo da cadeia alimentar da ciência brasileira não raramente se mostram incapazes de demonstrar um mínimo de erudição científica. Este é para mim um sinal ainda pior de que essas bolsas estão sendo distribuídas de acordo com critérios equivocados.

Mas concordo com o Prof. Nassar que um problema adicional grave que foi criado nos últimos anos é de que os que recebem as bolsas de produtividade acabam por concentrar o grosso dos recebimentos de recursos nas diferentes modalidades oferecidas pelo CNPq. Essa situação acaba implicando numa condição permanente de elitização de quadros científicos e inibe a possibilidade de que possamos ter avanços reais na produção científica nacional, o que acaba por reforçar o caráter periférico daquilo que é produzido pela ciência brasileira.

Tenho total concordância com o que o fato de que todo esse processo tem resultado na formação de uma geração de pós-graduados com baixíssima capacidade de liderar futuros cientistas. Como professor de Metodologia da Pesquisa por mais de 18 anos tenho notado a progressiva erosão de conhecimentos básicos acerca dos fundamentos que devem guiar uma pesquisa que possa posteriormente resistir a um processo mais rigoroso de revisão por pares (peer review).  E a causa disso é a pressão vinda do CNPq e também da Capes para que haja mais quantidade de produções, mesmo que sem a necessária qualidade.

Finalmente, voltando ao início deste texto, não possuo muita esperança de que as distorções atuais sejam corrigidas fácil ou rapidamente. Entretanto, a minha expectativa é que mais lideranças da comunidade científica façam como o Prof. Nassar para que comecemos a traçar estratégias que nos permitam sair desse atual estado de coisas, onde poucos têm disposição para tocar nas feridas que ele tão claramente tocou.

A universidade do “Trash Science” como emblema de uma sociedade desigual no Brasil

meritocracia

Um dos meus interesses desde que comecei este blog em 2009 é a situação da universidade brasileira, mormente os aspectos degenerativos impostos pelo produtivismo acadêmico imposto pelas nossas principais agências de fomento, principalmente nas duas últimas décadas.  Num afã de colocar o nosso sistema científico (que depende quase 100% da produção vinda de universidades e institutos de pesquisa públicos), assistimos à erupção sem xeques do que eu alcunhei de “trash science“. 

Mas a produção de “trash science” (em português claro a produção de lixo científico como se ciência fosse) trouxe impactos que vão muito além da colocação de trabalhos em revistas científicas que ignoram a regra da “revisão por pares” e aceitam em publicar qualquer coisa que seja em troca de um punhado de dólares. É que ao se aceitar tacitamente que o “trash science” seja internalizado como legitimo, as agências de fomento como o CNPq e a Capes contribuem para um verdadeiro vale tudo atinja todos os aspectos da produção de ciência no Brasil, bem como os sistemas de premiação com bolsas e financiamentos de projeto de pesquisa e, por último, o sistema de contratação de docentes e pesquisadores via concursos públicos.

Em função dos amplos efeitos degenerativos que a cultura do “trash science” gera, eu não me surpreendo com a notícia trazida hoje pelo jornalista Maurício Tuffani em seu blog “Direto da Ciência” sobre um imbróglio envolvendo docentes da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que participaram de bancas que aprovaram um sócio num concurso público para docente na Escola Polítécnica da USP, e na sua banca de doutoramento (Aqui!). A notícia pode ser surpreendente para a maioria dos leitores do  “Direto da Ciência“, visto que estamos falando de profissionais que atuam nas duas principais universidades brasileiras, mas não a mim.

É que eu já tomei ciência de coisas bem piores na minha própria instituição, envolvendo situações assemelhadas e que não apenas foram aprovadas pelos colegiados internos, mas também solenemente ignoradas pelo Ministério Público quando denunciadas. E novamente notemos que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) é também muito bem avaliada, inclusive no tocante à suposta qualidade de seu corpo docente.

Mas então diante de qual fenômeno estamos confrontados? Em minha opinião, de uma combinação perversa entre o patrimonialismo que reverbera historicamente na sociedade brasileira com um recobrimento cínico de meritocracia acadêmica que é fornecida pela difusão e legitimação do “trash science” como mecanismo artificial e fraudulento de melhorar o desempenho internacional da ciência brasileira.  Não é preciso dizer que considero essa combinação nefasta, visto que não apenas internalizamos o padrão conservador que prevalece historicamente na sociedade brasileira, mas como damos legitimidade a personagens que se especializam na produção de lixo científico que apenas serve para seus fins particulares, inclusive a de facilitar esquemas desvelados pelo “Direto da Ciência“. E o produto mais acabado disso é a formação de uma geração inteira de mestres e doutores sem qualquer condição para alavancar de forma sólida a evolução da ciência brasileira, visto que lhes falta a necessária preparação intelectual para tanto.

E tome “trash science” !

Trash science: as conferências caça-níqueis são apenas a ponta do iceberg

As atribulações dos últimos dias não me permitiram abordar de forma rápida ao material que o jornalista Maurício Tuffani publicou na plataforma “Direto da Ciência” acerca da volta com força total das conferências científicas caça-níqueis ao Brasil (Aqui!).

O fato das conferências caça-níqueis serem as irmãs gêmeas das revistas de “trash science” apenas reforça o caráter predatório das mesmas. É que como já mostrou o próprio Maurício Tuffani em determinados casos há uma espécie de ligação direta entre a conferência caça-níquel e uma revista predatória, a qual é normalmente publicada online pelos mesmos “empreendedores” da área da publicação científica.

Para mim a pergunta que realmente importa é de porque pesquisadores em diferentes níveis de desenvolvimento de sua carreira científica se submetem a este tipo de esquema de vulgarização da ciência. As respostas são muitas, mas a principal parece ser a preferência dada pelos órgãos de fomento por premiar a quantidade e não a qualidade do que é publicado como sendo produto de investigação científica.

Algo que chama a minha atenção toda vez que este assunto surge é o quase completo silêncio que se forma por parte da ampla maioria da comunidade científica, e não apenas da brasileira. Esse é definitivamente um fenômeno global e que responde a um processo de comodificação da ciência. A diferença é que no Brasil enquanto muitos participam ativamente dos eventos e revistas que produzem e disseminam lixo científico, poucos falam aberta e criticamente do problema.

Felizmente um núcleo de resistência a este processo de vulgarização do conhecimento científico está se formando, graças ao trabalho de indíviduos como Maurício Tuffani e Jeffrey Beall que vem apontando não apenas para a existência do problema, mas também para a necessidade urgente de que saiamos de uma posição de negação do óbvio para outra que recoloque a produção da ciência dentro dos marcos rigorosos que permitiram avanços impressionantes no entendimento de processos naturais e sociais nos últimos quatro séculos.

Finalmente, para os interessados em não cair nas malhas das conferências caça-níqueis, sugiro a leitura dos critérios propostos pelo professor Jeffrey Beall para identificar quando nos deparamos com esse tipo de pseudo evento científico, o qual pode ser acessado (Aqui!).

Do Direto da Ciência: físico do CBPF critica as posições da ABC e da SBPC frente ao golpe

Carta da ABC e da SBPC ao governo Temer sobre fusão de ministérios deixa a desejar

temer

Por MARIO NOVELLO, Especial para o Direto da Ciência*

Li com atenção o documento Em defesa de uma política de Estado para a ciência, a tecnologia e a inovação, de 6 de maio de 2016, tornado público pelos responsáveis pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) e pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Para ler, o resto do artigo de Mário Novello, basta clicar Aqui!

Marketing blogueiro: lançamento do “Direto da Ciência”

direto da ciencia

Em tempos de crise generalizada existem diferentes posturas para enfrentá-las. O jornalista Maurício Tuffani,  que é especializado em ciência, ensino superior e meio ambiente, adotou o caminho da “highway” e não da “downway”.  É que ele acaba de lançar um arrojado projeto editorial na forma de um blog que tratará dos diferentes aspectos que cercam a ciência e sua produção.  Estou falando do lançamento do “Direto da Ciência” que ele acaba de iniciar com um artigo sobre o envolvimento de professores da Universidade Estadual de Campinas numa situação pouco clara na reprodução do que eu venho chamando de “trash science” (Aqui!).

Dado o silêncio que normalmente cerca determinados imbróglios envolvendo pesquisadores, brasileiros ou não, o lançamento de um veículo como o “Direto da Ciência” me parece fundamental para que não continuemos desinformados sobre os caminhos e descaminhos pelos quais a comunidade científica vem trilhando em tempos de comodificação da ciência.

E a experiência acumulada pelo jornalista Maurício Tuffani o credencia a transformar este projeto em um instrumento sólido de disseminação de informação e debate de ideias sobre a ciência brasileira. Afinal como editor de ciência, blogueiro e repórter da Folha de S.Paulo, e editor-chefe das revistas Scientific American Brasil e Galileu (Editora Globo). e ainda como diretor editorial da revista Unesp Ciência,  ele demonstrou ter o necessário rigor e expertise para tratar de assuntos espinhosos que a maioria dos pesquisadores brasileiros prefere não se pronunciar publicamente.

Por isso, tudo é que recomendo que os leitores deste blog passem a também a acessar o “Direto da Ciência”.